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sexta-feira, 26 de abril de 2019

A Menina Regressa

Olá! Olá! Olá! Estou de volta!

"Excited rainbows" por marc johns
Pois é... há muito tempo, há demasiado tempo, que não escrevia nada. Aposto que pensaram que o blogue tinha finado de vez. Foi algo que eu própria ponderei. 
Havia muitas coisas a ponderar, entre elas o que pretendo com o blogue. Nos últimos tempos em que estive activa neste blogue, comecei a sentir-me desanimada com tudo isto.

Por um lado, parecia-me que, neste "mundo", existe a obrigatoriedade de um compromisso com uma frequência de posts e produção de conteúdos que eu pareço não conseguir cumprir e que pode "custar seguidores". Encontrei a resposta para essa obrigatoriedade ao responder "o que pretendo com o blogue?".
Por outro lado, não só a falta de apoio por parte dos que me são mais próximos (e que já aprendi a lidar com isso há muito tempo), mas sentir que alguns não me conhecem de todo e que há seguidores desta página, que nunca privaram comigo e que me entendem melhor do que algumas pessoas que fazem parte da minha família.
Eu não pretendo ser uma blogger conhecida, não pretendo ser a dona da verdade, não pretendo fazer dinheiro com o blogue, nem pretendo fazer publicidade a produtos a troco de dinheiro. E, acima de tudo, não pretendo vender a imagem da minha filha a troco seja do que for.

Autor desconhecido. Fonte

Mas, então... O que pretendo? Saberei, sequer, o que pretendo com o blogue? Às vezes é mais fácil saber o que não queremos do que saber o que queremos.
O que eu pretendo é que este seja um espaço de partilha.
Não só de mim para quem me lê, mas também de quem me lê e deseje partilhar a sua experiência, opinião, conhecimento, etc.

E espaço de partilha de quê? Bem... Embora este blogue tenha sido dominado pela temática "maternidade/parentalidade", eu não sou apenas mãe. Como qualquer pessoa, incorporo vários papéis (mãe, mulher, indivíduo) e tenho uma variedade de gostos e opiniões que transcendem o assunto "bebés e crianças".

Haverá sempre um tema sobre o qual tentarei abster-me de comentar: opiniões político-partidárias. No entanto, até certas opiniões sobre maternidade são opiniões políticas e não as evitarei. Um exemplo disso é o tema "licença de maternidade" (sobre o qual aproveito já para dizer que defendo uma licença a 100% até aos 6 meses do bebé e ser prolongada até aos 12 meses, no mínimo!).
Outras temáticas políticas também me são caras enquanto pessoa preocupada com a sociedade, seja a saúde, a habitação, sexualidade e género, e por aí fora. Sempre que considerar pertinente ou, simplesmente, me apetecer escrever sobre elas fá-lo-ei. Tal como já escrevi sobre programas de televisão.


Em relação a potenciais mal entendidos que possam acontecer, não há grande coisa que eu possa fazer. O que escrevo representa o que sei, penso ou sinto, num determinado momento e sobre determinado assunto. Por vezes as publicações são bem ponderadas antes de as fazer, outras vezes são impulsivas e/ou em tom de desabafo.

O que posso dizer sobre interpretações erradas? Eu não controlo, nem quero controlar, a forma como os outros percepcionam o mundo. Não só isso, mas está fora de questão condicionar-me por receio de poder ser mal interpretada.

Quando são desconhecidos, posso não me ter expressado da melhor forma ou que, por terem formas de ver o mundo diferentes, lêem de forma a interpretar de modo menos acertado.
Quando são pessoas com quem privo, não é problema meu. Já me deveriam conhecer o suficiente, para não se surpreenderem com a minha forma de escrever nem com o modo como penso acerca de certos assuntos. A estas pessoas só posso fazer um pedido: se algum dia ficarem melindrados com algo que escrevo, liguem-me para conversarmos.
Aquilo que vos prometo é que não sou mal intencionada em relação a outras pessoas, nem quando discordo delas, e que não gosto de lavagens de roupa suja em público. Quando tenho algum problema com alguém falo directamente com a pessoa de modo a esclarecer tudo e, nessas situações, dispenso audiência.
Por isso, se alguém não gostar do que digo ou escrevo, antes de se sentir ofendido ou de sentir que o objectivo é ofender alguém, falem comigo e esclareçamos tudo.

"Share the love" por Clare Owen

Concluindo: I'm back, bitches!

E com muito para partilhar.
A minha vida pessoal e profissional tem evoluído a um ritmo estonteante. 2019 está a ser um ano de mudanças. Estou tão entusiasmada.
Mudança de casa, mudanças profissionais, a entrada da Carminho na creche.

Manterei os segredos, os brinquedos e os vestidinhos da Carminho, o artigo semanal, as fraldas reutilizáveis, alimentação... E, como sempre, disponível para as vossas sugestões sobre temas.
Agora, vou-me organizar para pensar em como organizar as ideias que tenho para o blogue e, para a semana, isto voltará a mexer!

Até já!
Autor desconhecido. Fonte

sábado, 15 de dezembro de 2018

O meu dia a dia - Planeamento Diário com um bebé 18 meses


Pois é, mais uma temporada em que me ausentei do blogue. A verdade é que desde o Verão (ainda escrevo as estações com maiúscula) que andámos numa fase de transição.
Passar de duas sestas para uma, a Carminho começar a ter necessidade de estímulos diferentes e mais adequados a esta etapa de desenvolvimento, uma carrada de dentes a nascer. Enfim...
Durante as férias saí da rotina que tinha, o que acontece com muita gente, e quando voltámos já não era bem o que ela precisava e tínhamos ambas de nos re-organizar.

A passagem de duas para uma sesta foi um bocado seca. Demorou mais tempo de adaptação do que as outras supressões de sestas. Os períodos de rabugice eram mais longos por estar cansada, mas não o suficiente para dormir, e a sesta que dormia era de 1 hora. Depois de determinada hora, ela não podia estar no carrinho ou andar muito tempo no carrinho, senão adormecia e bastavam 10 minutos no carrinho para já não dormir a sesta (acordava mal eu metia a chave na porta ao regressar, por exemplo).
A certa altura pensei que talvez pudesse começar a testar a passagem para um cama de criança, ou seja, sem grades. Tentei que fizesse a sesta na nossa cama, deitando-me com ela. Começou bem, mas a certa altura já só adormecia a mamar (coisa que já não fazia há mais de um ano) e despertava assim que eu me tentava escapulir.

Fonte


Começou também a passar por momentos mais difíceis às refeições. "Difícil" não é bem a palavra certa... Começou a não comer tanto, a não querer estar sentada na cadeirinha de refeições, mas comer em pé não era bom para fazer uma refeição em condições porque só petiscava. O que acabou por fazer com que lhe fosse dando comida ao longo do dia, perdendo também a rotina das refeições. Como ia comendo porque eu não queria que passasse fome, quando chegava a hora das refeições, não comia o suficiente porque não tinha fome. Um efeito pescadinha de rabo na boca.

Quem me conhece e quem me segue, sabe que isto de "ir com a corrente" não é para mim, nem para a Carmo. Somos as duas de rotinas. Não há problema em, de vez em quando, sairmos delas, mas não ter uma rotina não serve para nós. A Carminho, numa mistura de dentes, desenvolvimento e falta de rotinas, já estava a acordar novamente durante a noite.

Decidi então, voltar à rotina anterior das sestas, comprar mobiliário à medida dela para refeições e brincadeiras (no gabinete temos uma mesa e cadeiras para crianças e ela adorava) e acabar com isto de estar sempre a comer "coisinhas" (de volta aos lanches).
Ao mesmo tempo, tinha de apostar a sério na lavagem dos dentes, coisa que não estava a correr muito bem (ela não achava piada nenhuma), e ela já estava a dar sinais de querer largar as fraldas. Tinha de ser no Inverno, não tinha?
Como não convém haver muitas mudanças em simultâneo, decidi que a cama nova ficaria para depois de voltar a ter as rotinas bem estabilizadas, bem como a questão da lavagem dos dentes e das fraldas.

Fonte
Há cerca de um mês pus-me a pesquisar planeamentos diários de mães que estão em casa com os filhos. Como é que elas organizavam as suas vidas para ter a casa limpa, os filhos estimulados, como é que lhes ensinavam as músicas para aprenderem palavras (e que músicas), como promoviam os hábitos de leitura, quanto tempo demoravam nas actividades, etc...
Nesta pesquisa encontrei também um planeamento de uma creche, pensei "isto é que é!" e fiz um planeamento que enquadrasse as duas coisas.
Fui ao IKEA e trouxemos o conjunto de mesa e cadeiras Lätt (é barato e serve perfeitamente), tive de trazer a cadeira Färgglad porque a Carminho se apaixonou por ela e não a largou durante todo o tempo que lá estivemos, quatro estantes para especiarias Bekväm para pôr a crescente biblioteca da Miss Cominhos, o bacio Lockig e dois bancos Bekväm para fazer as chamadas torres de aprendizagem (um para a cozinha e outro para a casa de banho) para que a Carmita chegue às bancadas e, por exemplo, lave os dentes.

Depois de tudo montado, com a ajuda e supervisão da Carminho, a minha prioridade foi a recuperação da rotinas do sono e a lavagem dos dentes.
Ou seja, comecei a seguir o planeamento diário, mas sem me preocupar demasiado com a rotina das refeições.
Antecipava o pior, por implicar deixar de lhe dar mama para a adormecer. Surpresa! Foi uma maravilha! Percebi qual a hora ideal para a sesta dela e nada de a meter no carrinho ou no carro meia hora antes. Às 12h30 é hora de almoço e às 13h00 é hora da sesta. Claro que não é necessário ser demasiado rígido. Como já falei noutro artigo de rotinas, as coisas podem ser adaptadas para mais cedo ou mais tarde, desde que não se passe trinta minutos da hora rotineira. Claro que haverá dias que não se pode cumprir essa meia hora e não há problema haver excepções à regra, depois temos é de perceber se o humor dos pequenos não for o melhor e ter muita paciência e miminhos para lhes dar.
As sestas começaram por ser de uma horinha, com ela a despertar e vir agarrar-se à mama em modo zombie durante outra hora. Actualmente, por volta das 13h00, levo-a para o seu quarto, mudo-lhe a fralda (com muitos miminhos à mistura), pego nela, baixo os estores e fecho cortinados, canto-lhe uma canção de embalar (no nosso caso é "o balão do João", não me perguntem porquê), deito-a e pronto. Às vezes refila um bocadinho e em cerca de 2 minutos está a dormir, mas na maioria das vezes não se queixa de nada. Está a dormir 1h45 a 2h00.
Atenção: quando eu digo refilar, não digo chorar. É mesmo mandar vir, acredito que saibam do que estou a falar. E tenho um limite de 10 minutos no qual, se ela não parar, vou lá embalá-la (no colo) ou percebo que não há sesta para ninguém, ela lá terá os seus motivos, e ficamos as duas no mimo, sem actividades muito estimulantes, para que possa descansar o mais possível. Não é mesmo comum isto acontecer. Aliás, desde que regressámos à rotina que ainda não houve "sestas falhadas".

Carminho e a cadeira
A lavagem dos dentes, com o banco do ikea, tornou-se numa maravilha. Uma brincadeira pegada.
Abre e fecha a torneira (desculpa, ambiente!), tem uma enorme colecção de escovas de dentes e de pastas, adora abrir e "pôr" pasta nas escovas e "cuspir" para o lavatório.
A colecção enorme aparece porque quando lhe comprei uma nova escova tive de comprar também para mim, porque a minha é eléctrica e não são muito semelhantes. Acontece que a D. Carmo, não queria a dela, queria a minha. No dia seguinte, fui comprar uma mais parecida com a minha. Ficou mais convencida, mas não muito. As grandes continuam a ser as preferidas. Epá, desde que aprenda a lavar os dentes para mim está óptimo. Isso e o facto de as escovas andarem na minha boca e na dela. Não é o cenário ideal, mas com tempo lá chegaremos.

Com as sestas e a lavagem dos dentes no bom caminho, era altura de pensar nas refeições e no desfralde.
As refeições foram uma maravilha, comendo mais ou menos consoante o dia, adora que nos sentemos à mesinha dela para comer. O ideal é sempre comer o que está no prato da mãe, mesmo que seja exactamente igual ao dela. Já dou por mim a comer com tudo cortadinho e com um garfo pequeno, porque sei que se vai abarbatar de tudo. Baby steps! Tal como na lavagem dos dentes, o que importa é que coma. Não é grande fã de colher, adora o garfo, mas não o dela. Gosta de usar um garfo de sobremesa.
O desfralde... ficou em espera! Tantos sinais que dava, mas não achou piadinha nenhuma ao bacio. Adorou usar cuecas (comprei umas reforçadas), adora dar-me o papel higiénico quando eu estou na sanita, mas quando chegou a altura de se sentar no bacio... sentou uma vez na boa e depois nunca mais. Não faz mal! Esperemos por outra altura, se for na primavera/verão, mais fácil para mim que basta que esteja de vestido.

Carminho e a mesa


E pronto, fica aqui o planeamento diário da Carminho e da Mãe.
Claro que não o seguimos escrupulosamente todos os dias. É uma base orientadora. Há dias em que não saímos de manhã ou à tarde ou que saímos durante menos, por exemplo se estiver a chover bastante ou se estiver mesmo muito frio.
Há dias em quem não é preciso tratar de assuntos na rua e vamos um bocadinho mais tarde para o parque. Dias em que não me apetece arrumar ou fazer qualquer coisa em específico.
Para mim, o mais importante são as sestas, as refeições e que brinque.
A verdade é que com este novo planeamento diário consigo ter a casa mais arrumada, sair mais vezes de casa, descansar e agora mais tempo para o blogue!

A ilustração usada como capa deste post é da autoria de Valentina Ferioli (Fonte)

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Um bocadinho de solidariedade, please

Ilustração por Norman Rockwell

Nem sei bem como começar este artigo. Estou cansada.
Mas isso estamos todas. Não conheço uma mãe que não esteja cansada. Mais não seja porque quando deixa de ter os filhos sob a sua asa continua a preocupar-se, a querer ajudar, e já não tem idade para que o corpo aguente a curtição da liberdade recém-adquirida.
Estou cansada porque "Eu não tenho opção", porque sou mãe a tempo inteiro.

E fico cansada com a falta de solidariedade.

"Olha-me a lata desta! Está em casa todo o dia de papo para o ar com a sua filhota e ainda se queixa!", pensam algumas pessoas.
Relaxem, não há nenhuma competição para ver quem está mais cansado. Vocês queixam-se da vossa vida e eu da minha sem tentarmos ganhar a coroa de "Miss Exaustão 2018", combinado? Até porque se fosse uma competição, eu diria que ganham os que não dormem. 
Antes de pensar em ter filhos, sempre que ouvia lamúrias de mães domésticas o meu pensamento era "Difícil é ter um trabalho e no final do dia ainda ter de tratar dos filhos e da casa! Não fazem nada todo o dia e ainda se queixam. O que é que custa?"
Estava longe de imaginar que o destino se haveria de encarregar de me fazer responder a essa questão.
Na minha cabeça (e na de muitas pessoas que não passam por esta circunstância), uma mãe a tempo inteiro passava o dia de papo para o ar a comer bombons, a ver televisão e a brincar com a cria. QUEM. ME. DERA!


MATI = Mãe A Tempo Inteiro

















Sabem porque é que custa tanto ser mãe a tempo inteiro? Porque não espairecemos. Porque não saímos nunca deste cenário. Todos os dias da semana são iguais. O cansaço não é tanto físico, é psicológico. A Carminho não está na creche, por isso estou sempre em modo mãe. Os meus dias são passados a falar e a cuidar de um bebé. E quando ela se deita eu já não tenho energias para fazer mais nada, a não ser babar durante uma horinha no sofá até adormecer.
Os pais que trabalham ou que têm os filhos na creche têm uma mudança de cenário. O Duarte já me chegou a dizer "isto ao fim de semana consegue ser mais cansativo do que uma semana de trabalho."

Quanto à falta de solidariedade de que falei no início, é um assunto que já foi falado entre nós, pais e casal, por isso é que agora falo do assunto no blogue.

Tenho um excelente marido e a Carminho tem um pai fantástico. No entanto, por vezes sinto que há uma enorme falta de solidariedade.
Nem todas as MATI são ricas ou dondocas. Nós não somos ricos, no entanto sou mãe a tempo inteiro. Isso significa que é o trabalho do Duarte que sustenta financeiramente o nosso lar. Foi uma escolha consciente que fizemos. Havendo possibilidade financeira, não me importei de deixar a minha vida profissional em pausa, para providenciar à minha filha um acompanhamento permanente da minha parte.
Esta escolha, a nível individual, resulta numa grande pressão para cada um de nós. Por um lado, eu lidar com a minha dependência total do meu marido (e se lhe acontece alguma coisa? E se ele me decide trocar por uma gaja mais nova? Ou mais velha? Ou se se farta?) e ficar numa situação delicada em relação ao mundo do trabalho actual que terá impacto na minha reforma (se a tiver). Por outro lado, o Duarte fica com a pressão de ser o único a ganhar dinheiro para providenciar uma boa vida à mulher e à filha. Enquanto pais estamos ambos certos e seguros da nossa escolha, enquanto indivíduos temos de lidar com as nossas inseguranças. É um equilíbrio delicado.



Da minha parte, não só tenho de lidar com a questão da minha situação profissional e o seu impacto na minha velhice, mas ao dedicar-me a tempo inteiro à minha filha, significa que fico com muito pouco tempo para cuidar de mim e eu sempre fui uma pessoa solitária. Gosto muito dos meus amigos e da minha família, mas a sociabilização esgota-me e sempre precisei de ter tempo sozinha para recuperar energias. Estar sempre com outra pessoa (por mais que a ame mais do que a tudo o resto neste mundo) deixa-me exausta e não tenho oportunidade para recuperar, porque quando deito a Carminho, vou jantar e a seguir adormeço.

Como o Duarte é quem ganha o dinheiro, tentei sempre não o impedir de fazer as outras coisas de que gosta. E ele não se corta a nada. Aproveita tudo. E, se por um lado eu acho fantástico, por outro sinto uma falta de solidariedade enorme, porque eu tenho de viver nos buracos de tempo dos outros. Tenho de viver enquanto a Carminho dorme e tenho de programar a minha vida para os intervalos do meu marido (para ele poder ficar com ela). Ver que ainda tenho de me adaptar aos passatempos dele, às vezes incomoda-me.
Será egoísmo? Inveja? Se calhar... E qual é o problema? A minha vida mudou radicalmente desde que fui mãe e toda a minha vida está dedicada a criar deste ser extraordinário que é a minha filha.

Há uns meses, voltei a ocupar-me profissionalmente com alguns projectos. Portanto, deixei de ter oportunidade para cuidar de mim, porque quando há um intervalo na vida do Duarte, tenho de aproveitar para trabalhar.  E eu vou ficando para trás. Ver uma mudança tão grande na minha vida e a dele continuar com as mesmas diversões, incomoda-me. Isto porque acho que de vez em quando deveria haver um pouco de solidariedade parental e ficar comigo em vez de ir a qualquer lado. Sim, é verdade que ambos diminuímos a frequência com que estamos com amigos, mas de resto ele continua com os seus hobbies e eu tive de abdicar dos meus.

Uma coisa que eu fiz foi juntar-me a outras MATI e falar à boca cheia de como me sinto. De vez em quando, juntamo-nos no parque com os nossos filhotes. Aquelas horas são a pensar no bem estar deles, para brincarem ao ar livre, meterem os pézinhos na relva, andarem nos baloiços e estarem com outras crianças. Mas acredito que para todas nós, apesar de nunca termos falado nisso, é um grupo de auto-ajuda. Um espaço em que somos todas iguais e podermos falar com outros adultos, saindo do nosso casulo mãe-bebé. Naquele momento, somos um clã e cuidamos das crias umas dos outras, relaxando.

A certa altura disto de ser MATI, tinha a Carminho uns 6 meses, comecei a sentir que ia enlouquecer. Sentia-me presa no mesmo dia, todos os dias. Não sei se já viram o filme "O Feitiço do Tempo", com o Bill Murray, mas era precisamente assim que eu me sentia. Decidi que tinha de me aplicar no meu futuro profissional e fazer dinheiro. Ia aliviar muito do stress da minha vida - ganhava dinheiro e ocupava a cabeça com assuntos não relacionados com a maternidade. No entanto, trabalhar em casa ou sermos os nossos próprios chefes significa exactamente o mesmo do que ser MATI: os outros acham que não fazemos um bacalhau. Que não fazemos nada durante o dia, que o nosso trabalho não tem tanto valor, que o nosso trabalho se pode interromper, que se algum trabalho tiver de ser re-agendado tem de ser o nosso. E o próprio Duarte entrou neste registo. Como trabalhava e queria espairecer, começava a agir como se o lazer ou descanso dele fosse prioritário em relação ao meu trabalho. Certo dia, ao telefone com uma amiga, que também é mãe a tempo inteiro e também se tinha dedicado a alguns projectos por conta própria, perguntei: "Sinto que o todo o meu trabalho é completamente desvalorizado e que  é passado para segundo plano". "E é mesmo. Aqui também, o que é que julgas? Parece que nos põem à prova", respondeu-me ela. E aí eu percebi que não estava sozinha. Também percebi que o Duarte não o fazia conscientemente. E, nesse momento, aceitando as diferenças biológicas entre homens e mulheres (a mulher é a cuidadora e o homem é o provedor), percebi também que a falta de solidariedade não era intencional ou por falta de atenção, era mesmo uma incapacidade biológica de perceber o que é ser mãe. Do que é ser mãe a tempo inteiro. Do que é ser mãe a tempo inteiro no século XXI. Só havia uma forma de ultrapassar isto e era falando.

"Mas podes ir, desde que não demores mais do que 3 horas", "Mas podes ir depois de ela adormecer", "Esta manhã não te chegou?" - são falsas escolhas. E já as ouvi.
Ir com um limite de tempo, não é ter tempo de qualidade. Deixa-me em stress, a olhar para o relógio se quiser ir a qualquer lado, tenho de chegar para sair logo a seguir.
Ir depois de ela adormecer não é opção, porque ao final do dia não tenho energia nem para fazer o jantar de raiz, quanto mais ir sair. E sair com quem? Quem é que sai durante a semana? Agora nas férias é mais fácil.
Sair uma manhã com uma amiga não me chega. Não! Eu passo a semana inteira em "modo" mãe e às vezes quero (e preciso) de sair deste registo. De não ter essa responsabilidade, de andar preocupada se come, se dorme, se bebe, se mama, se não está a comer a ração das gatas. Passo a semana inteira a comunicar com um bebé todo o dia, todos os dias, preciso de convívio com adultos a falar de outros assuntos, para manter a minha sanidade mental. Preciso de re-aprender a estar com adultos sem lhes estar a falar permanentemente das gracinhas da Carminho ou a pegar no telemóvel para ver as fotos que tirei durante o dia.
Preciso de convívio com adultos fora de minha casa, porque normalmente os convívios são aqui porque a D. Carmo está a dormir.


Às vezes sinto que eu abdiquei de tudo e o Duarte não abdicou de nada. E quero solidariedade! Pode nem ser 100% verdade, mas é o que sinto. Quero que, de vez em quando, ele diga "olha, hoje não vou à bola, para ficar aqui contigo". Quero que ele pense um bocadinho antes de dizer "Sim!" ao ser desafiado para alguma coisa. Só de vez em quando. Nem eu quero que ele fique sempre em casa, como eu. Porque estar sozinha de vez em quando é fixe - a Carminho ferra à noite e eu não me importo de ficar sozinha, seja a anhar, seja a ler, seja a escrever no blogue.

Mas gostava de, de vez em quando, não ser a castradora quando lhe digo que algo não é possível porque é exactamente na hora de deitar da Carminho e só dá para fazermos coisas juntos antes ou depois. Gostava que em vez de me perguntar se pode ir a qualquer lado, me dissesse "eu sei que estás cansada, mas vai haver um concerto e gostava de ir". 
Ok! O meu grande problema em relação aos tempos livres do Duarte é com a sua obsessão com futebol. E a forma como os tempos livres dele andam à volta disso.
Vai aos jogos, vê os jogos, lê sobre os jogos, vê os programas desportivos, joga à bola (chegou a ser 3x por semana!). É bola, bola, bola, bola...
Ter me sujeitar aos intervalos do trabalho e ainda aos intervalos da bola é demais para mim.

Mas já nos sentámos e falámos. Já estabelecemos prioridades: a prioridade é o trabalho do Duarte porque, de momento, é o que nos paga a renda; segue-se o meu trabalho; depois os tempos livres do Duarte (porque é mesmo algo que o deixa feliz). Entretanto, uma vez por semana a Carmita vai uma manhã para casa da minha mãe, deixando-me livre para ser e/ou fazer o que for preciso.
E os programas de comentadores desportivos estão proibidos!

Pronto! Está feito o desabafo! Está resolvida a questão.
Bom, bom, era ter uma empregada que limpasse e cozinhasse todos os dias, todo o dia. Isso é que era fabuloso. Assim dava para eu ser mãe dondoca NA. BOA!
Se eu ganhar o Euromilhões já sei. Uma governanta/ama (para quando eu tenho de ir tratar de algum assunto), empregada/cozinheira (para cozinhar os meus menus semanais) e um motorista/jardineiro (para não ter de andar à procura de lugares de estacionamento e ter alguém que me cuidasse das plantas, que eu deixo morrer tudo). Já tenho tudo planeado. O raio do Euromilhões é que 'tá quieto! Talvez amanhã.