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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O Meu Parto IV - O Pós-Parto

Os partos são difíceis. Ou melhor, não é esperado que sejam fáceis, embora os haja.
E quem me dera que o meu tivesse sido.
Lembro-me que um dos meus pensamentos, no auge da dor e antes de me levarem para o bloco operatório, foi: "Desisto!"
Claro que no milésimo de segundo seguinte percebi que não havia cá "desisto" para ninguém. Era uma situação da qual é impossível escapar. O bebé tem de sair, doa o que doer, saia como saia.



No artigo "O Meu Parto III - O Parto", fiquei aqui:
Como ela tinha nascido de manhã, assim que fosse para a enfermaria poderia receber visitas.
Durante todo este tempo, desde que tinha saído da sala de partos, o Duarte ficou quase 2 horas sem saber de mim. Quando, finalmente, encontrou uma médica que tinha estado no nosso quarto foi-lhe dito que "mãe e filha estão bem". Foi assim que ficou a saber que já era pai. Quando saíssemos do recobro ele poderia ver-nos.
O que não sabíamos é que haveria uma falha informática e, durante um período de tempo, ninguém saberia responder à pergunta do Duarte "Onde estão a minha mulher e a minha filha?".

Continuando...
Até chegar ao recobro estava meio abananada. Já sem dores, a tentar perceber o que se passava, quem era, a tentar perceber o que tinha acontecido nas últimas horas e com um cansaço enorme.
Pensei no bem que me saberia dormir umas valentes horas. Uma boa noite de sono, que já não tinha há dias. E depois lembrei-me que isso tudo tinha acabado. Não havia cá descanso. Não haveria noite de sono bem dormida, nem de várias horas seguidas.
Agora tinha uma bebé e a recuperação e descanso tinham de ser feitos de acordo com ela.

Da parte da bebé, enquanto estive na maternidade, não me podia queixar. Todos os outros bebés choravam, a minha nem emitia um som. Aliás, a minha grande preocupação em relação a ela era que não acordava nem por nada. "Deve mamar de 2 em 2, 3 em 3 horas", diziam e uma hora era passada a tentar fazer com que acordasse. Nas primeiras semanas mamou sempre nua, só de fralda. Despiamo-la para que acordasse e às vezes isso não era suficiente e tinha de ser combinado com cócegas nos pés ou nas axilas e estimulação do maxilar, porque ela adormecia durante a mamada.
Pegar bem na mama, é toda uma outra história, todo um outro artigo. Porque, ao contrário do sono, não foi nada fácil. Agora começa a melhorar, e mesmo assim...



Chegada ao recobro, foi-me dito que, assim que passasse para a enfermaria poderia receber visitas. Pouco tempo depois, a enfermeira apareceu e disse-me que iam abrir uma excepção à regra de "não visitas no recobro", porque o sistema informático estava em baixo e não me conseguiam transferir para a enfermaria. Só o pai da bebé poderia vir e já era uma excepção enorme. Alguns minutos depois:
"Vem aí o pai e o avô". "O avô? Qual avô? Não me sabe dizer?". Não me apetecia nada que o pai do Duarte aparecesse, não me sentia com forças para formalismos. "O avô que é médico." Era o meu pai! Fiquei tão feliz! Estava explicada a segunda excepção. Se o meu pai não fosse médico, não teria entrado. Mas é assim que as coisas funcionam. E, se eu sempre fui muito inibida dessas coisas e raramente usei "o meu pai é médico" em contextos que me poderiam ajudar, naquele momento não queria saber. Sim, é um privilégio. Não, não quero saber se é certo ou errado. Estava fragilizada e ter o meu pai ao lado era o que eu precisava.

Chegaram ao recobro, só podiam ficar 5 minutos, porque não é suposto haver visitas naquele local. A felicidade nos olhos de ambos, a conhecerem a Carminho. O meu pai sacou logo da máquina e ele e o Duarte tiraram fotos à e com a bebé, ao mesmo tempo que me davam atenção a mim também.
Veio a enfermeira e disse-lhes que o avô tinha de sair, mas o pai ainda podia ficar mais um minutinho. Quando chegou a altura de sair, ficou combinado que eu lhe ligaria quando passasse para a enfermaria. Pouco depois, a enfermeira viu-me com o telemóvel e disse-me que não o podia ter no recobro. Já não me lembro bem porquê, mas o Duarte voltou ao recobro e tive de lhe entregar tudo, ficando incomunicável.
Entretanto, tive vontade de fazer xixi. Trazem-me uma arrastadeira e, tal como durante o parto, tive de ser algaliada. Não adiantou endireitarem as costas da cama ou saírem de perto da cama. Não havia maneira de fazer xixi, portanto foi de algália. Duas vezes. Numa das vezes acho que fiz o xixi mais longo da minha vida. Nunca pensei que algália fosse tão simples e pensava que se ficava sempre com uma sensação de xixi incompleto, mas não. É impecável. Não dá aquele alívio que sabe super bem, mas ficamos óptimas.
Ora, as visitas na MAC para os pais são das 12h às 21h. A Carminho nasceu às 10h56 e só passei para a enfermaria pelas 18h00.
Estava eu a "arrumar" o meu espacinho na enfermaria (temos uma cama, uma mesa de cabeceira, o berço e nada mais), quando:
- Tia? Olá! Já passou a hora das visitas, com é que... oh! Já sei! Já percebi - A minha tia é enfermeira e, tal como o meu pai, fez uso da chamada "cortesia profissional".

Antes que comecem já a fumegar e a dizer que estas excepções são inadmissíveis deixem-me dizer que a "cortesia profissional" e o "favor ao amigo" funcionam em qualquer profissão. Quem conhecer gente nas Finanças ou na Segurança Social, nem sequer tem de lá pôr os pés, os amigos levam-lhes os papéis e ajudam-nos nessas coisas. Nos bancos é a mesma coisa, nas imobiliárias também, nas forças policiais, na EMEL. Lojistas que usam os seus descontos para comprar coisas para os amigos, etc, etc, etc... É assim em todo o lado. E não me venham dizer que, se fossem vocês, não aproveitariam a excepção. Além do mais, eu estive "presa" no recobro durante horas, logo a seguir ao parto, em que não podia ver ninguém, em que não pude contactar ninguém, por causa de uma situação excepcional.



Aproveitei que a minha Tia estava ali para ir à casa de banho. Assim, a Carminho não ficava sozinha. Levantei-me, comecei a arrastar-me pela enfermaria e só depois de alguns passos é que reparei que estava a deixar um rasto de sangue atrás de mim. A porcaria da cueca e do penso gigantes, tinham saído do sítio e eu estava a sujar tudo. Por isso é que vos digo: fraldas para adultos! Com as fraldas isto não teria acontecido.
O meu "xixi tímido" não é só para o uso de arrastadeiras, é também em casas de banho públicas. Além do mais, com a episiotomia acontece as mulheres sentirem um ardor (mais ou menos intenso, depende da mulher) quando a urina entra em contacto com a ferida. A antecipação dessa dor fazia com que o xixi ficasse ainda mais tímido. Respirei fundo, concentrei-me, e fiz o que tinha a fazer. Não me doeu, não me ardeu, nada. Pelo menos dessa tinha escapado. Custava-me imenso andar, por causa da cicatriz. Para me limpar só mesmo a encostar o papel, nada de o arrastar na pele.

Pedi à minha Tia que ligasse à minha mãe, para que ela dissesse ao Duarte que eu já estava na enfermaria e para ele me trazer o telemóvel e as minhas coisas. Porque eu não tinha nada. Nem mala, nem artigos de higiene, nada! Só me tinham deixado ficar com uma muda de roupa para a bebé. A resposta do meu querido marido foi que já não pensava em passar lá naquele dia e que me levaria as coisas no dia seguinte. Fiquei num misto de incrédula, com desapontada, com triste, com furiosa, com sensação de ter sido abandonada. Sabem a que distância nós moramos da maternidade? 2 quilómetros! Até a pé se faz num instante! Não só a filha dele tinha acabado de nascer, o que era argumento suficiente para ele dever querer voltar à maternidade, como sabia que eu nunca tinha sido internada e que estava sozinha e sem comunicação com os outros. Como é que ele podia ter uma atitude daquelas? Estar com os amigos a celebrar a paternidade era mais importante do que cumprir o seu papel de pai e de marido? E o que é que custava interromper a festa durante 10 minutos para me ir levar as coisas? A certa altura eu já só estava furiosa.



Sentar-me, deitar-me, levantar-me, tudo era um suplício com as dores que tinha na cicatriz. Quando serviram o jantar, debiquei qualquer coisa, sempre em pé, porque só de olhar para aquela cadeira de metal me doía a cicatriz.
Chegou a altura de apagarem as luzes da enfermaria. A bebé a ter de mamar de 2 em 2/3 em 3 horas e eu sem relógio ou telemóvel para poder ver as horas. O único relógio da enfermaria não era visível da minha cama e a solução que a enfermeira me deu foi levantar-me e ver ou então pedir a uma das outras mães. Amaldiçoei o Duarte. A minha bebé era dorminhoca, era dificílimo acordá-la para lhe dar mama, eu com medo de que ela entrasse em hipoglicémia pela falta de alimentação e sem forma de poder controlar as horas sem ser levantar-me, o que me fazia doer a cicatriz só de pensar. Estava eu a resignar-me ao meu destino de mais uma noite terrível (já tinham sido duas noites em claro, mais uma que mal faria? "Assim é que se vê que só podemos contar com nós mesmos. Não vale a pena contar com a ajuda dos outros. Sou eu e tu filha, só as duas e vamos conquistar o mundo!"), quando o Duarte entra na enfermaria.
Vá lá! Dignou-se a interromper a festa de "wee sou pai" para ser pai e marido. Não sei, nem me interessa, porque é que mudou de ideias, mas agora eu já podia por o alarme para 3 em 3 horas e tentar dormir nos intervalos.

De 3 em 3 horas, fazia um esforço "sobre-humano" para me levantar e acordar a bebé para lhe dar mama. E depois, um segundo esforço para dar a segunda mama e ter de me virar na cama enquanto a segurava. Tinha de a despir e fazer cócegas e todo um número de ginástica para que ela acordasse e mamasse. Tenho a sensação que chamava as enfermeiras sempre que era hora da mama, porque ela não acordava e eu tinha medo de ser muito brusca a acordá-la.
A certa altura, uma das enfermeiras reparou que eu estava a ficar com feridas nos mamilos. Não me doíam, mas estavam lá. A Miminho não pegava bem e estava-me a ferir os mamilos. Sugeriram que usasse um mamilo de silicone. Lá foi o Duarte levar-me um mamilo de silicone e placas de gel da Medela.

Confesso que nem me lembro bem do tempo que lá estive.
Lembro-me que as enfermeiras e as auxiliares era todas, todas!, amorosas e super pacientes e profissionais. Em particular a Enfermeira Graça Lima, com quem criei uma ligação mais especial.
Lembro-me da inter-ajuda entre mães, quando alguma de nós precisava de ir à casa de banho: "podes só vigiar aqui o meu bebé?".
Lembro-me de como uma mãe se riu quando viu a minha cara a olhar para a cadeira à hora do almoço: "sei bem o que estás a pensar. Custa bastante". E ficámos a trocar impressões sobre as dores.
Lembro-me que de 4 em 4 horas lá tomava um paracetamol.
Lembro-me que passava a vida a pedir gelo para a episiotomia.
Constantemente, lá estava eu a carregar no botãozinho para pedir ajuda a alguém.



Só lá estive dois dias, mas pareceu imenso tempo. A certa altura, apesar de toda a ajuda, só já queria ir para casa. Ir à casa de banho enjoava-me imenso. Era o cheiro. O cheiro a sangue, o cheiro a fluidos. Não era o cheiro a xixi e cocó, era o cheiro dos lóquios. Já não podia com aquele cheiro.

No último dia iam pesar a bebé, ver da icterícia, etc., para saber se lhe davam alta, e depois viria uma médica observar-me para ver se me davam alta.
Foi a Enfermeira Graça que a pesou e reparou no angioma na nuca da Carminho - "É a marca dos especiais!" disse-me ela, mostrando-me o seu.  Contra as expectativas das enfermeiras (aparentemente, tinham falado sobre isso) a bebé já tinha recuperado peso suficiente para poder ter alta e de resto estava tudo bem com ela. Pois é, a minha filha não queria acordar para mamar, mas quando pegava na mama era a sério.
Comigo, estava a recuperar bem da episiotomia e estava tudo bem, mas tinha de ir à casa de banho. Oh não!!
Se eu tenho xixi tímido, com o resto ainda é pior. Expliquei à médica e à enfermeira o meu dilema. "Eu sofro de obstipação e não consigo ir à casa de banho em locais públicos. Não consigo relaxar. Em casa tenho um banquinho para apoiar os pés e todas essas coisas. Ainda há umas semanas tive uma crise, fiz um clister e nem assim me aliviei. Tive de tomar dois clisteres e aguentar 15 minutos num banho de imersão morninho. Eu duvido que vá conseguir fazer aqui. Há sempre gente a entrar e a sair da casa de banho, sons, não consigo relaxar a pensar que pode ser a minha bebé a chorar...". Elas entenderam o meu problema. "O ideal era que fizesse aqui, mas compreendemos isso".
Naquele dia a Enfermeira Graça, que era uma porreiraça, tentou, sem sucesso, encontrar uma casa de banho mais sossegada, e perguntou-me se eu queria um clister para tentar ir à casa de banho, "é melhor serem dois". Pus-me a andar de um lado para o outro e a aguentar o máximo de tempo possível. Quando tive vontade fui para a casa de banho. E o que é que saiu? Nada!! Só o próprio clister. Foi uma desilusão. Até ela ficou surpreendida. Passadas umas horas, diz-me que me iam dar alta, mesmo sem ter ido à casa de banho, reforçou que o ideal seria fazer ali, mas que se não fizesse ia para casa na mesma. Disse-lhe que tentaria uma segunda vez. Mais dois clisteres. "A ver se é desta". Mais quinze minutos. Mais uma ida à casa de banho. Finalmente!!! Consegui fazer. Saí da casa de banho, encontrei a enfermeira:
- Consegui!!!! - E abraçámo-nos a festejar e a rir.

Antes de sair, esteve a explicar-me uma data de procedimentos e contraceptivos e tudo e tudo. "Contraceptivo? Abstinência e não se fala mais nisso!", disse eu. Depois daquilo tudo quem é que pensa em sexo? Quem é que, 48 horas após ter sido cortada e levado pontos internos e externos pensa em ter algo a roçar ali? Ok! Eu sei que há mulheres que pensam. Acho óptimo, saudável, tudo isso. Acho também que são umas bravas do caraças! Porque só de pensar em lavar-me naquela zona ficava toda encolhidinha. E só de pensar noutro parto ainda mais!
- Depois pensamos no segundo - disse o Duarte
- Tu pensas no que tu quiseres e podes ter quantos quiseres. Eu fechei a loja. Podemos adoptar, recorrer a uma barriga de aluguer... podes ter filhos com outra... como quiseres. Eu nem quero ouvir falar nisso.

Enfermeira Graça, se ler este artigo (eu sei que segue o blogue), um grande abraço para si e para todas as enfermeiras que, infelizmente, não decorei o nome. Mas em especial para si ❤



A saída da Maternidade revelou o alto nível de segurança com que os nossos bebés estão protegidos. Não só o alarme no pézinho, como vários pontos de controlo que comunicavam uns com os outros à nossa passagem. E, mais uma vez, todos uma simpatia. 
Ainda estava na zona da enfermaria quando passámos pela das adolescentes. Acho eu que eram adolescentes, eram super novinhas. Estavam duas à porta, ainda grávidas, que olharam para a minha bebé e disseram "ooohhh, tão fofa! Tão linda! Tão pequenina!" e eu a babar-me, para logo a seguir uma delas me dizer "uau! Ainda tem uma barriga tão grande!!", "Então, é normal, a seguir ao parto a barriga não desaparece logo", "olha - disse-me a miúda - do meu primeiro, no dia a seguir estava lisinha". "Bitch!!", pensei eu... Se calhar com menos 15 anos a minha barriga também desapareceria no dia a seguir, mas a idade não perdoa... Sacana da miúda, logo a lembrar-me que tinha um longo caminho de recuperação a percorrer. Mas pronto, apesar de brutinha era simpática. Mas bolas, adolescente e já no segundo filho?

A viagem até casa foi um suplício. Aliás, sair da MAC foi um suplício. Bem como as três semanas seguintes.
Andar era um horror, sentar o terror... Até mudar de lado quando estava deitada era doloroso.
A acrescentar, tinha de sair de casa para ir ter com a minha tia ao Estoril para ir ver as minhas mamas (a amamentação foi um processo muito complicado e que, só agora, começa a melhorar), tinha de levar a miúda à pediatra.
Sou ateia, mas quando tinha de sair de casa benzia-me e rezava. Não, não o fazia. Mas quase!


Fonte
Durante a primeira semana em casa estava cheia de medo. De tudo! Até da minha bebé.
E se faço as coisas mal? Ao mesmo tempo, um enorme sentimento de frustração, porque não lhe conseguia dar colo. Dava-lhe mama deitada, porque era a única posição em que aguentava as dores, e tudo o resto tinha de ser o Duarte.
Tinha de ser o Duarte a tirá-la do berço para ma trazer, tinha de ser o Duarte a mudar as fraldas e a limpá-la, tinha de ser o Duarte a dar-lhe colo. E eu ali, deitada, impotente. A única coisa que podia fazer era dar mama e esse era um filme de terror.
Chorei imenso. Não só pelas dores, mas pelo perceber que o momento da amamentação não estava a ser o momento de vinculação que eu tinha esperado. Antes pelo contrário, era um momento horrível, de tensão, de stress, de medo, de dor, de angústia. Cada vez que ela começava a pedir mama eu quase tremia. Lembro-me de chorar ao lado do berço e pedir desculpa à minha bebé, por não conseguir ser uma melhor mãe. Por não conseguir pegar nela quando ela precisava de conforto e por não conseguir que o momento da mama fosse um momento de vinculação.
Chorei, gritei, mordi-me, contorci-me, apertei o Duarte, tudo e mais alguma coisa enquanto dei mama. E só pensava: vou aguentar 1 mês. Como esse mês custou a passar. No fim, "só mais outro mês". E assim chegámos aos 3 meses, sem que ela conhecesse outra fonte de alimento que não a mama.
Mas o tema da amamentação deixarei para outro artigo.

Tinha todos os cuidados com a episiotomia: arranjei uns paninhos de microfibra (ou melhor, cortei uma daquelas toalhas da Decathlon em vários paninhos) e, sempre que ia à casa de banho, lavava com água fria e sabão neutro (glicerina), depois limpava-me com o paninho. Só encostando, para absorver a água e secar o mais possível, nunca arrastando o pano.
Tirava fotos à cicatriz todos os dias, para ir vendo a evolução. Até que um dia, reparei e confirmei, um ponto infectado.
Claro... Claro que eu tinha de ter um ponto infectado! Porque é que haveria de ter uma cicatrização simples e rápida? Naaaaa.... Tinha de me infectar um ponto.
Mais uma ida às urgências. Horrível. Eu sem experiência a dar mama, só tinha dado deitada, e ali à espera só para me verem um ponto. A certa altura perguntei se não tinham um sítio mais recatado do que a sala de espera, para poder dar mama. Deixaram-me entrar. Mas mesmo assim, as cadeiras não eram confortáveis até por causa das dores horríveis, e o Duarte não podia estar lá dentro por causa das outras mulheres. Já tinha leite a esguichar por todos os lados e disse, com lágrimas nos olhos, "vou-me embora. Não vou ficar mais tempo aqui à espera, por uma coisa que só demora 5 minutos. A minha bebé precisa de mamar, eu não consigo dar aqui, vou-me embora".
As enfermeiras e médicas repararam e fui atendida logo a seguir. 2 minutos depois, saía do gabinete com uma receita de uma pomada para aplicar na cicatriz.

Durante duas semanas, a minha rotina diária consistia numa eternidade sempre que ia à casa de banho. Nunca me limpava com papel higiénico, só o encostava para absorver o excesso que ficava na pele e depois era "lavar com água fria, sabão neutro e passar com uma toalha suave", de seguida um quantidade enorme de cicalfate na cicatriz.
Para além da cicatriz tinha ainda de cuidar da hemorroidal. Claro que tinha de ter ficado com aquilo... Por isso, para além daquela rotina para a cicatriz, tinha ainda um bónus 3x ao dia de pomada para a hemorroidal.
A certa altura já nem sabia o que me doía mais: a cicatriz ou as hemorróidas.
Não só fazia estas limpezas todas como comecei também a fazer os Kegel. E com eles senti uma melhoria enorme, em tudo.
3 semanas depois do parto já estava quase como nova e decidi começar com caminhadas diárias. O que não durou muito tempo, porque veio uma onda de calor enorme e só ficava uma temperatura agradável às 22h00 e a essa hora não levava a miúda para a rua.
Quando tudo estava a encarrilar: menos dores, a amamentação menos mal, já conseguia andar, já não sangrava... O Duarte é operado ao tendão de Aquiles e tudo nesta casa cai em cima de mim.
"Tens de descansar", "Dorme quando ela dorme", "Tens de tratar de ti". Como? Impossível, entre um bebé recém-nascido e um marido que não pode andar, quem tinha de tratar da casa era eu. Quem tinha de acartar com as tralhas todas da bebé sempre que saíamos de casa era eu.
O cansaço já era tanto que chegou a um ponto em que eu já cometia erros parvos a conduzir. Não eram perigosos, eram erros de não me conseguir lembrar de caminhos que fazia há anos, de demorar eternidades a estacionar.
O que me valia é que a nossa bebé é uma santa. Tirando o não pegar bem na mama, não dá trabalho nenhum: dorme bem, alimenta-se em boas quantidades, não tem cólicas, é bem disposta.
Pronto: sofri com tudo, mas se a recompensa é ter uma sorte enorme na bebé que tenho e ela ser super saudável e feliz, isso vale a pena.



Oiço histórias de amigas e de mães em fóruns a dizer que os bebés não dormem, que acordam de hora a hora, que perdem peso, que têm cólicas. E eu sou penso "abençoada filha que me calhou."
Vale a pena todos os horrores do parto, dos pontos infectados, de todos os problemas nas mamas (feridas, bolhas, mastites, pus, etc etc), se tenho uma bebé que não sofre. Que é amada, que é feliz, que é saudável, que se está a desenvolver muito bem, que adere rapidamente às rotinas, que dorme...
Por ela, tudo vale a pena. Porque ela é a minha prioridade. Porque o meu dever enquanto mãe é protegê-la, adaptar-me às suas necessidades (por enquanto...), tudo.
A vinculação aconteceu. Não foi imediata, não foi com a amamentação (de todo!), foi com o cuidar dela. Foi com o brincar, com o limpar, com o falar. Foi com o dar colinho quando ela chora (não chora muito, mas chora). Foi com o perceber que ela me procura quando está com outras pessoas ou a brincar sozinha, mesmo que a seguir dirija a sua atenção para outra coisa. Foi com os sorrisos com que ela me presenteia todos os dias. Então os do acordar, são maravilhosos. Foi com o perceber que não há colo como o da mãe. Se ela começa a resmungar ou a chorar, mal vem para os meus braços tranquiliza. São os bracinhos dela à volta do meu pescoço a agarrar com força para que eu não a largue.
Todos os dias o amor cresce mais um bocadinho. Não veio com o parto, foi sendo construído. Não foi automático, mas já me apercebi que daria a minha vida por ela sem pensar. Agora já é o amor incondicional. É o amor da minha vida e agora percebo muitas coisas que dantes não percebia. Mas isso já é tema para outro artigo.



Agora que a minha história da gravidez e do parto está concluída, a minha ideia é ir partilhando convosco coisas como a linguagem dos bebés (sinais que eles dão de que estão com fome, sono, sobre-estimulados ou pouco estimulados), as sestas, o brincar, a importância das rotinas, como os habituar a adormecer/tranquilizar sozinhos, a amamentação, etc. Quero escrever também sobre a questão da vinculação, da amamentação, da depressão, etc.
Se houver algum assunto sobre o qual gostavam de ler, é só dizerem.
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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Saúde Pélvica

Há uns dias tive uma sessão/aula de fisioterapia na MAC.
Esta sessão foi-me marcada por eles, devido ao meu tipo de parto (fórceps).





Como vos disse, fiquei chocada por sermos apenas 4 mulheres quando 15 foram convocadas. Acho que as mulheres têm muito pouco cuidado com elas mesmas e sinto que há bastante desconhecimento no que diz respeito à saúde sexual.
Não que eu seja uma perita na matéria, mas desde miúda que foi algo que me interessou e algo sobre o qual me fartei de ler e pesquisar. Quer por uma questão de prazer, quer por uma questão de querer ser saudável.

A sessão foi com a Fisioterapeuta Sofia Carrêlo, que adorei. Gostei da sua forma de explicar as coisas e do seu humor. Gostei de como fala com um enorme à vontade e sem paninhos quentes ou medo de chocar. É cá das minhas. As coisas são como são e não vale a pena andar com paninhos quentes.

O tópico que se abordou foi, basicamente, a recuperação dos músculos do pavimento pélvico. No entanto também falámos de como tratar as cicatrizes da episiotomia e, muito superficialmente, lubrificação.



Quer já sejam mães, quer ainda estejam longe de o serem, quer não o queiram: todas as mulheres deviam fazer exercícios vaginais! TODAS! Desde ontem! Desde sempre. Vai ser algo que vou ensinar à Miminho assim que puder.

Apesar de já saber 99% das coisas faladas na sessão, há sempre espaço para aprender mais e formas novas de se pensar as coisas.
Antes de mais e como explicou a Sofia, precisamos de fazer estes exercícios porque temos uma enorme desvantagem: "o simples facto de sermos mulheres". Enquanto não evoluímos para uma postura bípede os nossos orgãos internos estavam apoiados nos músculos da barriga, onde não há buracos, quando nos pusemos sobre duas patas, a vida da mulher ficou dificultada e os nossos órgãos internos dependem de uns músculos que nos mantêm os orifícios fechados.

Os nossos órgãos estão assentes sobre os músculos pavimento pélvico (MPP), músculos que rodeiam os nossos orifícios lá de baixo: uretra, vagina e ânus.
São os MPP que: controlam a função urinária e fecal (fecham a passagem e impedem que andemos sempre a libertar fluidos), suportam os nossos órgãos dessa zona (evitam que a bexiga, o útero e o intestino saiam pelos orifícios que temos) e que promovem uma vida sexual saudável.


E reparem que à volta da vagina e do ânus, o músculo faz um 8 - Fonte


Vamos pensar um bocadinho: o que é que acontece aos músculos que não são exercitados? Pensem no infame músculo do adeus. Estava tão firme à volta do nosso braço e foi descaindo, há quem lhe chame asa de morcego. Porquê? Porque não se fez exercício, logo perdeu a força, perdeu elasticidade... Todos os músculos são assim, incluíndo o da nossa vagina. E é indiferente se parimos vaginalmente ou se nunca se teve um filho. Um músculo que não é exercitado perde qualidades. Neste caso não é só uma questão estética, é uma questão de saúde, precisamente pelas funções de que falei anteriormente.
Porque acham que há tanto mercado para as fraldas para os adultos? Porque acham que os anúncios destas marcas não falam em doenças que provocam incontinência, mas falam do "espirrei/tossi/ri e saiu uma gotinha de xixi"? Isto, minhas caras, é a consequência de não se exercitarem os músculos do pavimento pélvico em pessoas perfeitamente saudáveis, sem doenças que provoquem incontinência.

Depois, há um bónus de cedo se começarem a fazer os exercícios (a.k.a. Kegel - já explico): melhora a vida sexual. Ficamos mais apertadinhas e ainda temos a capacidade de proporcionar mais prazer ao homem, porque o podemos apertar durante a penetração. O que é bom para eles e duplamente para nós (dá-nos mais prazer e fazemos exercício).


Mega parêntesis:
Isto se formos hetero, nos outros casos não sei como fisicamente possa aumentar o prazer de outra mulher... agora vou ficar a pensar nisto... mais uma pesquisa a fazer e mais coisas constrangedoras no meu histórico.
Hmmmm... tenho de esperar pela vinda de uma amiga minha cá a casa. Era costume juntar-se um grupo de amigos cá em casa e debatermos assuntos sérios, com humor. Como, geralmente, a coisa era acompanhada com uns copos de vinho ou outras bebidas (no meu caso, absinto), acabávamos sempre com dúvidas de cariz sexual e alguém dizia "Oh, Rita! Vê aí no teu telemóvel como é que se faz...". Era sempre o histórico dela que ficava conspurcado.
Rita: preciso de ti. Tenho uma dúvida 😂

Continuando: Não só estes músculos previnem a necessidade de, mais cedo ou mais tarde, termos de andar com pensinhos diários ou fraldas, mas previnem prolapsos.
Sabem o que são prolapsos? É quando os nossos órgãos internos decidem sair e conhecer o mundo. É quando, por exemplo, se está na casa de banho e o nosso útero sai pela vagina. Quem diz útero, diz bexiga e diz intestino. Achavam que as hemorróidas causadas pela obstipação ou pela gravidez ou pelo parto eram más? Imaginem o que é sair-vos o intestino ou outro órgão que é suposto estar bem guardadinho dentro de nós.

Portanto, meninas: Estão à espera do quê para começar a fazer os vossos Kegel? Já deviam ter começado na adolescência! Vamos lá!




O que são os Kegels: São os exercícios criados pelo Dr. Arnold Kegel, em que se contrai e relaxam os músculos. Apesar de lhes ter dado notoriedade no ocidente, estes exercícios já eram muito praticados no oriente e conhecidos como pompoarismo. O pompoarismo já está um passo à frente dos Kegels: certamente já ouviram falar naqueles espectáculos tailandeses onde as senhoras disparam bolas de golf, fumam ou fazem outras coisas espectaculares com a vagina. Isso é o pompoarismo, isso é o resultado de muitos anos, muitos exercícios e muitas técnicas. Também não é preciso tanto, mas se quiserem: porque não? Não deixa de ser saudável e ainda têm um divertimento extra. Eu não vos julgarei.

Como fazer o exercício: Contrair os músculos como se estivéssemos a impedir o xixi ou um pum de sair. Não é apertar as nádegas! Nem encolher a barriga, nem nada disso. É o músculo que se encontra na zona do períneo. E depois, descontrair suavemente - não largar de repente.
Uma dica que segui e que só se pode fazer uma única vez (para perceber como se faz) é, quando forem fazer xixi interromperem o fluxo de urina. Ficam logo a perceber qual é o músculo. Mas não façam assim os exercícios, porque pode provocar infecções ou retenções urinárias e a ideia é sermos saudáveis e não nos prejudicarmos, certo?

Há dois tipos de exercício: um rápido e um mais lento.
Rápido ou alforreca (como a Sofia explicou e eu adorei): Contrair durante um segundo e relaxar completamente - repetir 10 a 20 vezes
Lento ou elevador: contrair em 5 tempos, enquanto se expira, e ir "subindo" a cada tempo  (há uma sensação de que os músculos sobem), manter 5 segundos, descontrair devagar quando se inspira (os músculos descem) e descansar 5 segundos. Numa fase inicial, repetir 5 a 10 vezes.
Deve-se fazer o exercício várias vezes ao dia. Podem estar em pé, sentadas ou deitadas. A cozinhar, a lavar os dentes, a amamentar, ao acordar, antes de dormir, enquanto se está ao computador. Ninguém repara e é rápido.



A Sofia deu ainda uma dica: colar um post-it no espelho da casa de banho, com o desenho de uma alforreca. Assim, ninguém sabe o que é, e sempre que lá forem lembram-se de fazer os exercícios.
Eu saquei uma app (tenho apps para tudo) em que defini os Kegel para 3 vezes por dia e sigo os níveis que eles têm. Sou um bocado baldas, confesso.

Outras coisas em que os Kegel ajudam:
- Na recuperação da episiotomia: assim que os comecei a fazer senti uma recuperação muito, mas muito mais rápida;
- Nas dores nas relações sexuais;
- Na laxidão vaginal;
- Alterações de sensibilidade.


Esta app está na App Store da Apple com o nome "Treinador Kegel - Exercícios do Assoalho Pélvico"

Outras dicas:
- Não vale a pena fazer muitas séries para compensar vezes em que não se fez. Estamos a trabalhar um músculo e não o queremos lesionar. Sim, este também se lesiona e cansa, não são só os outros;
- Usem um espelho para observarem os movimentos. Se calhar num primeiro dia não vêem grande coisa, mas com a prática vão vendo a evolução;
- Insiram um dedo e sintam o exercício. Para quem fez episiotomia, podem aproveitar esta altura para massajarem os pontos internos com elastolabo (se não forem sensíveis ao rícino, como eu);
- Divirtam-se com o vosso parceiro. Quando estiverem na vossa intimidade, aproveitem para fazer os Kegel durante a penetração. Perguntem-lhe o que sente, com o tempo e a prática ele vai sentindo cada vez mais.
- Há bolas próprias para se exercitarem estes músculos e que se vendem em sex shops. Há maiores e mais pequenas, com ou sem fios. Quais as ideais para vocês já dependerá da vossa musculatura vaginal, do vosso à vontade e da vossa experiência. Não tenham vergonha e peçam ao/à lojista que vos ajude (não deve ser a coisa mais estranha que ele já ouviu: de certeza!);

- Cintas: um grande "NÃO!" segundo a Sofia e segundo outras fisioterapeutas que já conheci. Era muito comum no tempo das nossas mães, mas agora é completamente desaconselhado (eu sei que há muitos médicos e enfermeiras que ainda hoje aconselham a cinta). Porquê? Porque para além de não resolverem nada, coloca uma pressão e peso acrescidos no pavimento pélvico e só prejudica a recuperação destes músculos. Se usarem para um casamento ou porque vão sair, tudo bem. Como uma peça diária, não. Além de que torna os músculos preguiçosos, enquanto que se não usarmos a cinta, temos tendência para irmos apertando a barriga durante o dia para que não se note.

-Falta de lubrificação vaginal: com a amamentação diminui a produção de estrogénio, o que faz com que a lubrificação vaginal diminua. Não há grande coisa a fazer até se acabar com a amamentação, para além de se usar um lubrificante. Para quem usa preservativos, é conveniente que se use um lubrificante à base de água, porque os que são à base de óleo podem danificá-los.

Provavelmente ficaram coisas por falar, mas a miúda está a acordar.
Qualquer dúvida que tenham é só perguntar que, se eu souber, explico.


Até lá:



Nota: Eu não sou médica, nem enfermeira, nem fisioterapeuta. Sou Psicóloga, actualmente doméstica. Simplesmente, farto-me de pesquisar sobre estes temas. Sempre que tenho uma dúvida agarro-me ao computador e fico horas a pesquisar. Isso vale o que vale e não substitui o que quem vos segue vos diz, ou o que vocês consideram ser melhor.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O Meu Parto III - O Parto




Antes de mais, um desabafo: Adorava deixar de escrever a bold! Mas sou uma naba nesta coisa do html e não consigo alterar a formatação. Queria manter a fonte, o tamanho, etc... Mas que o texto deixasse de estar a bold.
Quando vou ver o código html, não há nenhum <b> ou </b>, portanto não faço ideia! Se alguém me conseguir ajudar ficarei eternamente agradecida.



Como já toda a gente que me lê percebeu, o meu parto não foi fácil. Aliás, dizer que não foi fácil é quase um eufemismo. Foi difícil, traumático, etc. Até há uns dias não conseguia falar nisso sem ficar com os olhos cheios de lágrimas e com o queixo a tremer.

Atribuo parte do que se passou ao facto de me terem feito o toque com descolamento de membranas sem me dizerem. Esta prática é indutora do parto e era algo que eu dizia especificamente, no meu Plano de Parto, que NÃO queria. Pelo menos não até a gravidez estar nas 41 ou 42 semanas. Verdade seja dita: o meu plano de parto não foi aprovado pela direcção da Maternidade. No entanto, tinha-o guardado no meu boletim de grávida.

Acontece que o primeiro toque com descolamento foi feito às 39 semanas. Não fui avisada de que me estavam a fazer o descolamento de membranas. A médica apenas se referiu a uma "maldade" para verificar a abertura e tamanho do colo do útero. Portanto, se não quiserem indução já sabem: quando vos falarem em fazer uma "maldade" digam que não querem!
Eu até me considero uma pessoa informada, mas só reparei no que era tarde demais. Sempre fui de confiar nos médicos e de lhes tentar facilitar a vida: é o que dá ser filha de médico e sobrinha de enfermeiros. Conhecer ambos os pontos de vista e ter bastante à vontade nestas andanças.
O segundo toque com descolamento de membranas foi feito na segunda-feira da quadragésima semana. Já tinham feito uma vez e das vezes seguintes permiti que o fizessem porque, confesso, não me apercebi que era uma forma de indução e porque confiei.



No dia 23 de Maio, como escrevi aqui, "combinei com amigos para ir ver o "Alien", podia ser que ela se sentisse inspirada e decidisse sair por iniciativa própria". Quando voltámos para casa, fui para a cama e acordei cerca de 2h30/3h, pelas 02h30 com contracções.
Tentei continuar a dormir, mas eram contracções de 10 em 10 minutos. Não eram muito fortes, mas eram com uma frequência que nem me deixava adormecer novamente. Ao princípio tentei desvalorizar, achava que seriam mais Braxton Hicks, porque sempre achei que quando começasse com contracções seriam de 30 em 30 minutos ou de 20 em 20. Nunca esperei que fossem logo de 10 em 10.
Levantei-me, agarrei no telemóvel e fui para a sala. Tinha de monitorizar as contracções para perceber se era um falso alarme ou se já era mesmo o início do trabalho de parto. Apesar de não serem dolorosas eram incómodas e sentia um desconforto enorme na zona dos rins. Meti-me aos saltinhos na bola de exercícios, escrevia no blog, tentava entreter-me. As contracções continuavam estáveis de 10 em 10 minutos e eu sem saber o que fazer, porque não tinha grandes dores, mas nas aulas de preparação sempre disseram para irmos para o hospital quando as contracções fossem de 10 em 10 minutos. Decidi que acordaria o Duarte se passassem a uma frequência de 7 em 7 minutos, se começassem a doer mais ou a umas horas mais decentes para o acordar. Passadas quatro horas de contracções de 10 em 10 minutos, achei que devia ir às urgências, e lá o fui acordar, "temos de ir para a maternidade, acho que é agora".

- Já experimentaste a bola?
- Andei nisso toda a noite.
- Queres tomar um banho quente?
- Já tomei, mas se calhar tomo outro.
Tomei mais um banho quente (não que fizesse grande coisa, mas um banho de imersão sabe sempre bem), tomámos o pequeno-almoço tranquilamente, atrasamos um bocadinho a ida para as urgências,  mas lá fomos.

A partir daqui, o timing e ordem das coisas está um pouco mais difuso na minha memória. Algumas coisas poderão não ser exactamente na ordem ou como agora me recordo. O que vale é que tenho as minhas conversas com amigos para dar uma ordem à coisa.
Uma coisa que devem saber sobre mim é que, pelo menos antes de ter a Miminho, se eu não dormisse as minhas 8 horinhas de sono já tinha o dia estragado. Rabugice, cansaço, falta de paciência, irritabilidade, etc, etc, etc. De dia 23 para dia 24 de Maio, não tinha dormido mais do que 3 horas quando acordei com as contracções e, a partir daí, não dormi mais até ela nascer. O que aconteceu às 11h00 de dia 25 de Maio.

Fomos para as urgências da MAC, onde me foi dito que, apesar das contracções de 10 em 10 minutos, não tinha quase dilatação. Mais um toque, mais um descolamento de membranas, e um "vá andar durante duas horas e volte para uma reavaliação. Regresse antes se as contracções passarem a ser muito fortes, de 5 em 5 minutos, se perder sangue ou se a bebé deixar de se mexer".
Acordada desde as 02h30 e ainda tinha de ir andar durante duas horas? Se tem de ser, tem de ser.
Com um marido coxo e com dores no pé, lá fomos andar pelo nosso bairro durante duas horas. Ainda esperámos que a Zara da Guerra Junqueira abrisse porque eu tinha metido na cabeça que queria comprar saco-cama de linho lindíssimo que lá tinha visto. Sabem o mais engraçado? Eu na fila, gravidíssima, e nem a funcionária, nem a mulher que estava à minha frente me deram prioridade. E ambas olharam para mim. Ainda pensei em reclamar, mas como até precisava de estar em pé, só fiz um olhar reprovador e acabei a falar mal com a funcionária. Não é o meu estilo, mas enfim... Estava em trabalho de parto com contracções de 10 em 10 minutos há um porradão de horas e não me deram a prioridade que me é devida por lei, acho que mereço um desconto.
Por volta das 11h30 voltámos às urgências. Não tinha diferença nenhuma na dilatação. Continuava tudo na mesma. Já estava naquilo há 09h30 e estava com, praticamente, uma directa em cima. Estava cansadíssima e a coisa não evoluía. Já estava com vontade de chorar.
Mandaram-me novamente para casa: "Em princípio de hoje não passa, mas volte quando estiverem de 5 em 5 minutos ou insuportáveis".
Voltámos para casa. Tentei descansar, tomar outro banho quente. O desespero era o cansaço pela falta de sono. Sempre que adormecia acordava com uma contracção, parecia uma tortura de privação de sono.



Por volta das 19h30, com 15 horas de contracções de 10 em 10 minutos, ficaram super intensas. E fomos, pela terceira vez no mesmo dia, para as urgências.
Mal a enfermeira me ligou ao CTG tive uma contracção, sempre que entrava na sala tinha uma contracção: "Ena! Teve mais uma grande!" e eu a pensar "f****-se! Mas grandes eu sei que são, não preciso do CTG para me dizer isso...". Por esta altura já tinham passado 17 horas e eu já estava a ver a minha vida a andar para trás. Tinha decidido "Quero drogas!!! Quero tudo aquilo a que tenho direito". As minhas costas estavam tão lixadas que doíam só de lhes tocar.
Eram umas 22h quando fui vista pelas médicas. Continuava com pouca dilatação. Mais um toque, mais um descolamento, mais um "vá andar durante duas horas e volte para uma reavaliação. Regresse antes se as contracções passarem a ser muito fortes, de 5 em 5 minutos, se perder sangue ou se a bebé deixar de se mexer". "5 em 5 minutos durante quanto tempo?", perguntei eu. "Se tiver contracções de 5 em 5 minutos durante meia hora, volte.".

Parecia que estava a adivinhar. Disse ao Duarte que não valia a pena saírmos da zona da maternidade e mal saímos das urgências, tenho uma contracção horrível. Olho para o telemóvel, onde registava as contracções numa app, e tinham passado 5 minutos desde a última contracção. "Ok. Isto tem de se manter assim durante meia hora e eles admitem-me, finalmente". Foi a meia hora mais dolorosa da minha vida. Pensava eu.
A andar pelas ruas à volta da maternidade, de 5 em 5 minutos, encostava-me a uma parede cheia de dores. Durante meia hora, andei pela rua a chorar, a desesperar, a contar "já só faltam 5 contracções para voltar", "já só faltam 4", "pffff... faltam 3", "f***-se!! Só mais 2", "Vá lá, só mais 1!! Vamos voltar para as urgências!". Detesto que me vejam a chorar ou a sofrer, mas estava-me a borrifar. Além do mais, quem me visse percebia perfeitamente o que estava a acontecer: uma grávida, ao lado da MAC, a chorar agarrada às paredes e a dizer para o marido "A culpa é tua! Tu é que querias filhos, mais do que eu! Porque é que eu fui na tua conversa??". Nunca pensei ser um cliché ambulante, mas lá estava eu a responsabilizar a 100% quem me acompanhava.

De volta às urgências, fui sentar-me agarrando-me à cadeira da frente, enquanto o Duarte foi à recepção. Diz-me ele "deram-te alta".
- O quê????!!!!
Não me lembro se me levantei ou se gritei do meu lugar
- Não me deram nada alta! Eu estou aqui para ser reavaliada. Não me deram alta! E se me deram, abram novamente o processo!
A recepcionista lá foi ver o que se passava.
Eram umas 23h00, 18h00 de contracções, 4h00 de dores terríveis nas costas em que nem queria que o Duarte mas massajasse, estava eu na sala de espera das urgências da MAC cheia de medo de ser observada e que me voltassem a dizer para ir andar, porque eu mal conseguia mexer as pernas, quando... de repente... 












Senti um "pop", comecei a escorrer líquido e pensei "agora não há hipótese, têm de me admitir. Daqui já não saio". Avisei a recepcionista:
- Olhe, rebentaram-me as águas!
- Ok. Não se preocupe.
E nada...
Eu continuava a escorrer, a cadeira cada vez mais molhada e nada.
- Olhe, pelo menos, chamarem alguém para limpar isto, não?
Eu sei... eu sei... Para quem lá trabalha isto é mais do mesmo. É algo que acontece "n" vezes por dia, fui só mais uma a sujar mais uma cadeira e não é algo que os leve a vir-me buscar no segundo seguinte. Mas eu não estava bem em mim e era a minha primeira gravidez, pelo que estranhei aquele comportamento.
Lá me chamaram. Só a mim. Por enquanto o acompanhante ainda não entrava. Vou para a triagem, começam a falar comigo ou a fazer-me perguntas das quais já não me lembro, com a excepção de uma:
- Vai querer epidural?
- Sim!!!!

Levam-me para outra sala, para que vestisse a bata, e acompanham-me até à sala de partos. A anestesista já vinha para me dar a epidural. Eu não gostava muito da ideia de me espetarem fosse o que fosse na coluna, mas não aguentava muito mais, só queria ficar sem dores. Só queria descansar um bocadinho. Nesta altura as contracções eram com menor frequência, cerca de 3 em 3 minutos.
A anestesista chega, pede-me que me sente em cima da cama, com as pernas cruzadas à chinês e enrolando as costas. Lá me espeta o que tem a espetar, o que foi desconfortável.
- Como sente as pernas? - perguntou.
- Pesadas. - respondi, achando que fosse uma sensação normal.
- Pesadas?! - reagiu.
"hmmm..." pensei eu "resposta errada..."
- Sim, e estão dormentes.
- dormentes?!
- Sim.
- E está dormente onde?
- Olhe, estou a começar a sentir dormência até à barriga.
- Consegue deitar-se?
Tentei descruzar as pernas.
- Não consigo mexer as pernas.
E o meu corpo começa a cair para o lado.
- Senhora Enfermeira, agarre-a!
Deitaram-me na maca e aqui eu estava um bocado noutra dimensão.

- Sente isto?
Olhei e estavam a espetar-me qualquer coisa na perna.
- Não.
"Pronto! Estou paralítica." pensei "Não me vou preocupar com isso agora. Depois logo se vê."
Elas lá iam fazendo as suas coisas e eu, estava a ficar com tanto sono que decidi dormir uma sesta e aproveitar para descansar enquanto a médica e a enfermeira resolviam o que tinham de resolver. Eu só queria dormir.
- Fique connosco!! Não adormeça!!
Abri os olhos, havia mais gente à minha volta, metiam-me uma máscara de oxigénio. Parecia tirado de um filme. Normalmente, dizem estas coisas quando o personagem está prestes a morrer.
"Então é assim que acaba? Tenho tanto sono...".
- Não adormeça!
Lembrei-me da minha bebé e decidi fazer o esforço, por ela.
Aos poucos, comecei a recuperar as sensações no corpo. Por algum motivo, a anestesista deu-me água a beber. Engasguei-me. Tinha perdido a capacidade de engolir. Se, por um lado, estava a recuperar, por outro não conseguia engolir e durante uns bons minutos assim fiquei.

Sabem quando nos sentamos muito tempo sobre uma perna e, quando a tiramos de debaixo de nós, durante uns segundos não se sente nada e depois começamos a sentir uma dormência? Foi assim que senti o meu corpo todo. Não sentia nada e, depois, estava a sentir dormência da cabeça aos pés.
Com a dormência, veio uma comichão imensa na cara.
Foi mais ou menos nesta altura que o Duarte entrou na sala de partos.
- Tenho tanta comichão. - e coçava os olhos, o nariz, a boca.
- Menina, não se coce. Isso é só impressão, faz parte. Tente não se coçar.
Substituíram-me a máscara de oxigénio pelos tubinhos que se enfiam no nariz. Lembro-me de pensar que sempre tivera curiosidade em experimentar aquilo tudo. A máscara é desconfortável, mas os tubinhos são porreiros. Respira-se tão bem! Às vezes tirava-os para me coçar, mas assim que os voltava a encaixar, sentia o ar tão puro, tão leve, tão fresco. Era óptimo.

How I Met Your Mother  - Lily in labour
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Enquanto esteve a trabalhar, a anestesista foi com muita frequência ver se eu estava bem.
Com a epidural a funcionar era tudo muito mais suportável. Apesar da dilatação teimar em ser extraordinariamente lenta, com a analgesia já tinha forças. Sentia tudo, só não sentia dor.
Durante a noite lembro-me de ter trovejado. Lembro-me de ter vomitado duas ou três vezes. Lembro-me que quando voltava a sentir dormência era sinal de que ia voltar a ter dores e tocava na campainha para avisar. Lembro-me da Enfermeira Amélia. Não a senti muito ternurenta, mas pareceu-me uma mulher rija, confiante no que fazia e que me transmitia segurança. Lembro-me que precisei de fazer xixi, mas como não conseguia ir à casa de banho, trouxeram-me uma arrastadeira. Acabei por ser algaliada, o que não custa nada. 

De manhã, entram, no meu quarto, não sei quantas pessoas. Assumi que seriam internos ou estagiários. Uma médica vai ver em que estado está a dilatação, a posição do bebé, e mais não sei o quê que eles fazem.
A médica falava e a voz era-me familiar. Durante este tempo todo eu, que sou bastante pitosga (5 dioptrias) estive sem óculos. Ela falava com os colegas e eu reconhecia-lhe a voz.
- Vanessa???
- Menina???
Tinha sido minha colega no secundário e agora, 15 anos depois, tinha a mão dentro de mim.
- Então, tudo bem? - Perguntei - Nunca pensei que nos voltássemos a encontrar nesta posição.
Risada geral naquele quarto.
Tenho a sensação de que ela ficou bem mais desconfortável do que eu. Parece-me normal. No processo de gravidez e parto perdemos a conta a quantas pessoas nos viram e tocaram na vagina, o nosso pudor vai pela janela.
Foi uma situação estranha, mas como já nada me surpreende, encarei a coisa com humor e como mais uma história engraçada.

Passado não sei quanto tempo, volto a sentir a dormência. Vinha aí a dor! Toquei logo na campainha para avisar que precisava de mais um reforço.
Alguém voltou, não me deram reforço. Pensei que o anestesista viria a caminho (nesta altura, a primeira anestesista já não estava e já lá tinham ido dois diferentes). A enfermeira dizia-me para fazer força e eu fazia toda a que tinha. Estava com "9/10 centímetros de dilatação", ouvi dizer. Já estava mesmo no fim. Estava quase a acabar. Era agora.
Volta a dor. Desta vez, as dores que sentia nas costas eram absolutamente insuportáveis. Tentava fazer força quando sentia uma contração, mas as dores eram tantas que perdia as forças a meio da contracção.
- Tenho muitas dores, preciso de um reforço.
Ninguém respondia ao meu pedido. Só me diziam para fazer força. E eu tentava. E sentia que ela estava  a "meio do caminho", mas eu perdia as forças por causa da dor e a coisa ficava parada.
- Faça força! Mais força!
- Eu não consigo! Eu preciso de um reforço. As dores tiram-me a força, não consigo fazer mais do que isto. Por favor.
Nada de reforço. Dores horríveis. Percebi que não mo iam dar.
Estava lá uma médica loira que me diz, mais uma vez, para fazer força.
- Eu estou cheia de dores, fo... fogo!!!

Ia-me saindo uma asneira, um "foda-se".
Mas não saiu. Percebi que o meu superego é demasiado presente em algumas situações. Com dores lancinantes e fora de mim, fui incapaz de mandar um "foda-se" a uma médica.
Disse ao Duarte
- Caguei! Vou gritar.
- Faz o que for preciso.
E deitava tudo cá para fora quando fazia força ao sentir uma contracção.
Mas cada vez que gritava, pensava nas outras parturientes que estariam à volta e como os meus gritos as podiam assustar. Raios me partam! No meio daquilo, não só era incapaz de dizer uma asneira, como estava preocupada com as outras? A minha mãe educou-me demasiado bem.
Comecei a ficar um bocado fora de mim. Estava lixada da vida, aos gritos, cheia de dores, a fazer toda a força que conseguia, mas que percebia não ser suficiente. A senti-la a caminho, mas a não avançar. Ficava preocupada com ela.



Oiço alguém dizer que me iam levar "lá para cima".
- Consegue andar? - alguém perguntou.
- Estão loucos???? - gritei.
Nesta altura mandaram o Duarte embora, mas eu já estava noutra dimensão por causa das dores, por causa do meu estado psicológico, e nem dei por nada.
Entre dores horríveis tive de mudar de maca duas vezes. Uma para sair do quarto e para ir para o elevador e outra ao sair do elevador. Lembro-me que me custou horrores.

Quando dou por mim estou no bloco operatório.
Reparei naquelas luzes que aparecem sempre nos filmes e parecia que estava numa nave espacial. Tudo branco, os médicos e enfermeiros com as toucas e com as máscaras, só se lhes via os olhos.
Eu continuava a implorar pelo reforço.
- Já vai. Não se preocupe, tenha calma. Está quase. - alguém me respondeu.

E, de repente, um anestesista por quem quase me apaixonei. Só lhe via os olhos, eram tranquilizadores. Enquanto eu chorava de dores, fazia-me festinhas na cara. Suaves, mas com alguma pressão. A pressão certa. Uma voz apaziguadora que me dizia:
- Menina... Menina... tenha calma. Já estamos a administrar, daqui a uns segundos já não vai sentir dor. Tenha calma, menina.
O próprio anestesista era uma analgesia. Conseguiu tranquilizar-me. A voz e as festinhas eram como um abraço. Gostava mesmo de saber quem é para lhe poder agradecer. Nunca me irei esquecer do seu toque, do seu olhar, da sua voz. Nunca me esquecerei de como, no momento mais doloroso da minha vida, me conseguiu acalmar.



De repente, as dores passaram! Sem as dores recuperei a energia. Já estava pronta para mais um bocado.
- Faça força!
Fiz força uma ou duas vezes e, às 10h56 do dia 25 de Maio, uma Quinta-Feira da Espiga, nasceu a Miminho. Não chorou, mas vi que mexia os pés e as mãos e não me preocupei. Meteram-na a chorar. Chorou durante dois segundos, foi o suficiente. Pousaram-na no meu colo.
Estava roxa e tinha uns olhos enormes, que me fitavam. Levaram-na para a observar e eu pedi "breast crawl". Pousaram-na novamente no meu peito, mas de repente:
- Deixe-me só ver uma coisa!
E levaram-na novamente. Estava a ficar fria. O bloco é um local muito frio.

Senti um alívio enorme quando ela nasceu, mas o alívio total foi quando saiu a placenta. Aí sim, estava tudo cá fora. Avisaram-me que iam fazer uma coisa chata e que podia doer. Carregaram-me na barriga para que saísse tudo. Não me doeu. Foi desconfortável, mas nada de insuportável.
Depois, comecei a tremer e a contrair-me. Não sabia porquê. A médica explicou-me que era normal, porque o bloco é mesmo muito frio, mas que precisava que eu tentasse manter-me imóvel para que me suturasse. Tinham-me feito uma episiotomia e agora tinha de levar pontos por fora e por dentro.
Enquanto tratavam da minha filha, aproveitei para falar com a médica.
- Porque é que eu vim para o bloco? Foi alguma coisa que fiz?
- Não foi nada que tenha feito. Ela estava virada para cima, com a cabeça a bater no osso, acabaria por vir sempre para aqui. Tivemos de a tirar com fórceps.
Na sala ao lado ouvia a equipa a celebrar os "feitos" da minha filha recém-nascida.
- Olhe, não sei o que ela está a fazer, mas os meus colegas estão divertidíssimos com a sua bebé.
Percebi que lhe estavam a fazer o APGAR (começou por ter 9 e depois 10 pontos), ouvi alguém a rir-se e a dizer que ela tinha feito xixi.
Depois, a coisa acalmou. Perguntei pela minha filha.
- Está ali. Não a consegue ver através da porta?
- Doutora, eu sou cega e estou sem óculos. Não consigo ver nada.

Quando terminaram todos os procedimentos, juntaram-me à minha bebé.
Estava na altura de ir para o recobro. Como ela tinha nascido de manhã, assim que fosse para a enfermaria poderia receber visitas.
Durante todo este tempo, desde que tinha saído da sala de partos, o Duarte ficou quase 2 horas sem saber de mim. Quando, finalmente, encontrou uma médica que tinha estado no nosso quarto foi-lhe dito que "mãe e filha estão bem". Foi assim que ficou a saber que já era pai. Quando saíssemos do recobro ele poderia ver-nos.
O que não sabíamos é que haveria uma falha informática e, durante um período de tempo, ninguém saberia responder à pergunta do Duarte "Onde estão a minha mulher e a minha filha?". 
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