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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Amamentar: Sonho ou Pesadelo? - Parte 3/3



Triagem da MAC. Segunda volta.
"Estou com uma mastite, com abscesso", "Tem dores?", "Nem por isso.", "Tem febre?", "Não, mas eu nunca tenho febre. Além do mais, já vim cá ontem, foi confirmada a mastite, mas entretanto fui a uma consulta com uma médica especialista e estou com um abscesso". Desta vez observaram-me as mamas, pelo menos isso.
Sou chamada para a consulta. "Então, diz que tem uma mastite? Com abscesso?", "Sim. Fui vista por uma colega vossa, especialista em lactação, que vos escreveu uma carta.". Lêem a carta, observam-me e optam por chamar o especialista. Enquanto uma das médicas foi chamá-lo, a outra confessou-me "Quando entrou aqui a dizer que tinha uma mastite não acreditei. Pela sua cara, nunca imaginei que estivesse nesse estado. Achei mesmo que estava a exagerar. É uma estóica!".
Disseram-me que, no estado em que estava era suposto estar a chorar baba e ranho e a contorcer-me de dores. "De zero a 10, quanta dor sente?", "Bem... Não é bem dor. É mais desconforto.". Olham uma para a outra, em espanto e lá confirmamos, novamente, minha anormal tolerância à dor. Que, se por um lado é bom porque não sofro tanto, por outro acabamos todos (eu e profissionais de saúde) a desvalorizar sintomas. Se eu não tivesse a sorte de ser tão bem acompanhada, de estar sempre atenta e de ser informada, nem quero imaginar o que me poderia ter acontecido. Uma mastite é algo que se pode tornar extremamente grave se não for tratada o mais rapidamente possível, e é algo que se for apanhado precocemente é de muito fácil resolução.
Começam a explicar-me o procedimento habitual: davam-me anestesia geral, cortavam a mama para drenar e limpar, colocavam um dreno e durante uns dias não podia dar mama.

Deixam-me sozinha no gabinete e chorei. Chorei a pensar que me iam cortar, chorei a pensar que durante uns dias não podia dar daquela mama, chorei a pensar que iam ser dores horríveis, chorei a pensar que ia ficar com a mama marcada para sempre, chorei de medo da anestesia geral (a epidural já tinha corrido mal). Chorei com pena de mim mesma e com raiva, "Porque é que tudo me acontece?".
Entra o especialista, o Dr. Pedro Sereno, olha para mim e diz "grande mama!". Observou-me e deu-me duas opções: cirurgia (que implicava ficar internada umas horas e como tinha comido há pouco tempo ainda teria de esperar mais umas quantas) ou aspiração simples (o abscesso era pequeno, por isso dava para espetar uma seringa e aspirar o pus). Optei pela aspiração. Não só porque me lembrei do que a Dra. Mónica Pina me disse, como sou apologista de se tentar sempre o procedimento mais simples possível. Se piorasse, logo se via o que era necessário fazer.
A aspiração doeu um bocado, não vou mentir. Não tanto o espetar da seringa, mas quando me espremeram a mama para que saísse o pus todo. 20 ml de pus! Uma seringa cheia! Deixou-me o aviso "se piorar volte logo às urgências, caso contrário venha ter comigo na segunda feira de manhã".
Durante uns dias, de vez em quando começava a escorrer pus e lá ia eu buscar compressas e espremer a mama. Carradas de compressas com pus. Duas semanas, duas consultas e mais uma aspiração depois e eu estava como nova.



E... quando tudo parecia estar a correr bem, adivinhem!
Olho-me ao espelho e, uma semana depois, o outro lado da mesma mama estava vermelho e a pega voltou a doer horrores. Entrei em pânico.
Nova mastite? A sério? Quando é que teria descanso? Estava a ser acompanhada, a fazer tudo bem, tudo certinho e tinha de haver tanta coisa? "És de uma família de médicos e enfermeiros, é a nossa sina!", dizia-me a minha tia.
Desta vez ataquei logo, meti a Carminho a trabalhar (mama de 2 em 2horas, enquanto eu massajava), frio na mama depois de cada mamada (almofadas de gel e folhas de couve) e anti-inflamatório. Em 2 ou 3 dias parecia estar tudo bem. Decidi voltar à consulta do Dr. Pedro Sereno, por descargo de consciência, que me confirmou já não haver sinal de mastite - tinha-a atacado a tempo e bem.

Depois de ter resolvido mastites e tudo o resto, a Carminho já mamava de 3h em 3h e as dores eram cada vez menores. Como só ia a uma mama de cada vez, dava tempo aos meus pobres mamilos para recuperarem. Entretanto, vieram as primeiras vacinas e com ela uma crise de "mimo" que me levou a dar mama de 2h em 2h horas. E voltaram as dores! Com as dores que sentia, chegou a um ponto em que concluímos que ela só poderia mamar em intervalos de 2h30/3h00, numa mama de cada vez. Ela quando ia à mama sem fome, brincava com o mamilo ou lá o que fazia e dava cabo dele. Tinha de aguentar, não podia ser em livre demanda. Só podia mamar quando tinha fome, não lhe podia dar mama por mimo. Os intervalos de 3h00 resultavam, por isso tínhamos de voltar a eles. E se chorasse entretanto? Teria de aguentar ao colo (de preferência do pai, para não ser um tormento estar ao colo da mãe e não ir à mama).

Livre demanda? Não deu para mim. Ou melhor, não deu quando a Carminho queria mama com mais frequência. Actualmente, conseguimos. Ela nem pede maminha para se saciar, chega à hora da rotina e toma lá! Com intervalos de 4h00 e noites longas, tenho mais do que tempo para recuperar e consigo dar mama se, por algum motivo, ela precisar de uma mamada extra (como é o caso de ir levar vacinas) ou se fizer um intervalo menor. Assim, consigo tranquilizá-la na maminha.
Mesmo agora, com 5 meses, ainda não pega bem. Safo-me porque cresceu e tem a boca maior, senão o meu horror continuava. Já praticamente desisti de tentar que pegue bem. O problema dela é o posicionamento dos lábios e, de vez em quando, lá estou eu a ajeitá-los.

Se eu tenho uma anormal tolerância à dor e custou o que custou, nem quero imaginar pelo que outras mães passam. Aliás, acho que é graças a essa tolerância que, apesar de tudo, continuo a dar mama. Acho, não! Tenho a certeza.
A cada contratempo pensava "Só mais uma semana. Se não melhorar posso desistir, mas tenho de tentar mais uma semana". E de semana a semana, chegámos aos 5 meses de amamentação exclusiva. 5 meses em que a minha filha não sabe o que é outra coisa senão leite e mama da mãe. Foi o truque que usei para não desistir, para ir aguentando - "Só mais uma semana".


Continuo defensora da amamentação e da amamentação em livre demanda, e acho que as mães devem fazer um esforço para aguentar o máximo que conseguirem, para ver se melhora. É importante, muito importante. Às vezes a dor passa rápido, apenas são precisos uns dias para que os mamilos se habituem. Também é normal doer no momento em que eles pegam na mama e depois já não doer. Outras vezes o problema é o bebé pegar mal, mas há exercícios que se podem fazer e eles lá aprendem. Quando acharem que é muito difícil, respirem fundo e estabeleçam limites, sejam esses limites mais um dia, mais uma semana ou mais um mês.
E não, não há leite mau. Não há leite fraco. Os bebés é que passam por muitas fases, nas quais pedem mais mama. Quando vão passar por picos de crescimento, começam a ir mais vezes à mama e/ou a mamar mais tempo, para sinalizar ao corpo da mãe que será preciso produzir mais leite. Passam também por fases em que ficam mais carentes de mãe, porque se estão a desenvolver e é um trabalho duro, então pedem mais mama. Eu tenho sorte de ter imenso leite e de a Carminho ter tendência para ficar mais tempo na mama do que pedir com mais frequência. Mais tempo eu aguento, mais frequência nem pensar.
Mas somos Mães, não somos mártires. Tenho a certeza de que, se em algum momento tivesse decidido desistir da amamentação, ninguém me condenaria e teria o apoio da família. E, se não tivesse, que se lixassem. Porque o corpo é meu, a escolha é minha. E sabia que o teria feito por não ser capaz fisicamente, e por ser o melhor para a minha relação com a Carminho.

A minha experiência ensinou-me muito sobre amamentação. Muito! Em experiência tenho todo um curso de amamentação.
E ensinou-me também que, apesar da amamentação ser muito importante para o bebé, o mais importante é o bem estar psicológico da mãe e o bebé estar alimentado. É conseguirem encontrar um equilíbrio que permita aos dois estabelecer uma relação. Uma mãe instável não será uma boa mãe, por mais que queira, e isso é pior para o bebé do que lhe dar biberão.
Felizmente, consegui ir dando mama e perceber que tinha de aproveitar outros momentos para estabelecer a vinculação com a minha filha: através do vestir, da higiene, do mudar fraldas, do brincar, etc. Não foi pela amamentação que estabelecemos a nossa relação, com a amamentação corri o risco de prejudicar a nossa relação.
Mas, apesar das coisas terem melhorado, ainda hoje há momentos em que ela me magoa. E muito! E, nesse momento, vem ao de cima toda a revolta, toda a frustração, toda a ansiedade por que passei naqueles meses. Felizmente, não é frequente.

Por isso, não admito que me venham dizer que não promovo a amamentação.
Promovo, sim. Senão, não teria continuado a dar mama e a minha filha há muito que seria alimentada a leite artificial. Senão, não estaria a "rezar" para que não lhe nasça nenhum dente antes de fazer 6 meses, com medo de não aguentar mais dores e ser, por fim, obrigada a desistir de dar mama.
Mas, mais do que promover a amamentação, promovo a saúde mental e a vinculação. Sou uma defensora acérrima da amamentação, desde que não coloque em risco o apego mãe-bebé ou a sanidade mental dos pais. Seja pela dor, seja pela privação de sono, seja pelo que for.
Defendo que, mais importante do que o bebé passar a vida agarrado à mama da mãe, é a relação de vinculo entre os dois. Relação essa que se pode estabelecer de várias formas.

Aproveito para agradecer aos Profissionais que me guiaram neste processo e que me salvaram as mamas: A Enfermeira Luísa Valentim (minha querida Tia), a Enfermeira Adelaide Órfão, a Dra. Mónica Pina e o Dr. Pedro Sereno. Não sei o que teria sido de mim e da Carminho se não fossem eles.
Muito, mas muito obrigada. Do fundo do coração. E da mama! Viva a Mama!

Amamentar: Sonho ou Pesadelo? - Parte 2/3



Os bebés nascem com o reflexo de sucção, ou seja, nascem a saber mamar. O que podem não saber, e muitos não sabem, é a pegar bem na mama (e, consequentemente, a não magoar a mãe). Isto é uma terrível surpresa com que muitas mães se deparam. A terrível surpresa com que eu me deparei.
Enquanto estive na maternidade, não sei se por ainda me doer mais os pontos ou por ela não ter grande força, nem tive dores. Não tinha dores, mas ela fazia-me chupões, vergões ou lá o que ela fazia às minhas mama, que até ficavam em crosta.
"Não lhe dói?", perguntava espantada a enfermeira. "Não", respondia eu, sem perceber muito bem a pergunta e ainda sem saber da minha elevadíssima tolerância à dor.
Aconselharam-me mamilos de silicone que eu, muito toscamente, usava sempre que dava mama. Mamilos esses que, mais tarde, deitei fora porque não serviam para nada. Doía-me na mesma e, dor por dor, mais valia que a minha filha não mamasse em plástico.

Pouco depois de sair da maternidade é que a coisa começou a doer. Muito! E não era só durante a mamada. Era sempre! Durante uns 3 meses, não tive um momento sem dor, maior ou menor.
Ela pegava mal, por mais que eu fizesse exercícios próprios com ela ou que lhe ajustasse os lábios enquanto mamava. Pegava mal e, muitas vezes era de me fazer ir às lágrimas. De me fazer gritar, dar murros na cama, apertar a mão do Duarte com todas as minhas forças.
Sempre que se começava a aproximar a hora de mamar eu começava a ficar em pânico, a suar, a tremer por antecipação. Eu chorava, a Carminho chorava.
Era suposto a amamentação ser um momento bonito, sempre me venderam essa imagem. Sentia-me enganada, sentia-me desiludida.
Tinha medo de dar mama. O tempo entre mamadas parecia passar em milésimos de segundos e eu ficava apavorada de cada vez que tinha de dar mama. Só de pensar nisso tremia. Odiava dar mama. Entrava em tal estado de tensão, que a passava para a minha bebé. Ela mamava, mas pegava mal e, quando eu gritava, ela chorava porque se assustava. Eu não queria dar mama, eu não queria ter a minha bebé a mamar. Eu não estava a conseguir estabelecer o vínculo afectivo. 
Eu sabia que aquele amor mãe-bebé que tanto apregoam nem sempre vem com o parto, mas ele não estava mesmo a acontecer. A amamentação estava a impedir que eu me ligasse emocionalmente à minha bebé.

Os mamilos estavam a ficar cada vez mais doridos, porque não tinham tempo de recuperar entre mamadas. Dava as duas mamas em intervalos de 2h30 ou 3h00.
Ela fazia-me feridas nos mamilos, que iam formando umas crostas acastanhadas e que depois caíam no banho. Uma coisa estranhíssima.
Sempre que ultrapassava um problema, surgia outro. Sempre que eu pensava "agora é que isto vai melhorar"
Fui acompanhada de perto, e bem, por especialistas em amamentação, mas há coisas que dependem do bebé e a Carminho estava decidida em não pegar bem.
Às vezes não me doía e, ao verem a pega, as especialistas perguntavam "não te dói?", mas a certa altura eu já não sabia responder. Não sabia se já me tinha habituado à dor, sabia que ela estava a pegar mal e que era suposto doer, mas eu não sentia dor.



A recuperação pós-parto foi lenta e dolorosa. Eu não me conseguia mexer por causa das dores e o único momento em que conseguia fazer de mãe era marcado por pura tensão, ansiedade, stress... tudo. Não queria que chegasse o único momento em que eu podia ser mãe, odiava-o.
Demorou quase um mês até conseguir andar e sentar-me sem grandes dores (as dores ainda continuaram mais umas semanas, mas era suportáveis). Durante esse tempo, por causa de um misto de dor e de inexperiência, eu só conseguia dar mama deitada de lado. Recostar-me doía e sentar-me era impossível. O único sítio onde me conseguia sentar sem dores era num cadeirão do trabalho da minha tia.
Assim que me consegui sentar, e depois de um episódio nas urgências por causa de um ponto infectado, decidi que tinha de treinar em casa a dar mama em todas as posições: deitada, recostada, sentada, em pé. Não voltaria a estar numa situação em que não me pudesse deitar e não conseguisse amamentar.

Houve uma vez em que ela afastou a boca e escorria sangue. Não doía, mas era muito estranho.
Noutra situação, só ao fim de 40 minutos de dar mama é que reparei que o mamilo de silicone se tinha desviado e que ela tinha acabado de arrancar um bocado de carne da auréola com a sucção. Esse bocado de carne ficou pendurado e no espaço de 24h ficou preto e acabou por cair. Também não senti dor e quando falei com as especialistas elas disseram nunca ter visto nada assim. Acabei a dar autorização para que a fotografia da minha mama fosse usada em cursos sobre amamentação.
Descobri algo que eu nunca tinha pensado ser possível: bolhas nos mamilos. Há bolhas de leite e há bolhas de sangue. Eu tive das duas. É o mesmo princípio das bolhas nos pés. Algo ali a roçar na pele (neste caso a má pega) e que depois provoca bolha. Normalmente são na parte exterior dos ductos mamários e é por isso que ficam com leite ou com sangue. A enfermeira picou-me umas com uma agulha (não dói nada), só para eu aprender no caso de ser necessário, mas normalmente os bebés tratam delas enquanto mamam.
Sofria (e ainda sofro) do fenómeno de Raynaud - os mamilos ficam brancos e provoca dor mesmo quando não se está a amamentar, principalmente quando expostos aos frio. Eu sabia que sofria de Raynaud nas mãos e nos pés quando está frio. Aparentemente, é extensível aos mamilos.
Tomar banho era uma "maravilha", o primeiro toque da água a escorrer pelos mamilos fazia-me contrair de dor, agora imaginem quando fazia banhos quentes por causa da subida do leite. Lá ia eu, de madrugada, chorar para o banho. Menos mal quando optávamos por, em vez do banho, colocar panos de água quente nas mamas antes de amamentar.
Roupa a roçar nos mamilos então era um horror. Optei por usar as conchinhas, o que era uma chatice porque passava a noite a entornar as conchinhas e a acordar encharcada. Mas dizem ser o mais seguro em termos de problemas nas mamas - para evitar fungos e essas coisas devido ao mamilo ficar húmido durante muito tempo.



Numa manhã, olhei-me ao espelho depois do banho e reparei que metade da mama direita estava demasiado vermelha. Apalpei-me, senti uma parte dura à volta do mamilo, mas não doía. Pensei que a vermelhidão pudesse ser do banho e desvalorizei. Falei com a minha tia por telefone: a Carminho tinha de esvaziar a mama, antes que a parte dura ficasse pior. Como não me doía, não pensei muito nisso.
Dois dias depois, a Carminho não estava a ser bem sucedida a esvaziar completamente a mama. Continuava a sentir a parte dura, a vermelhidão continuava e agora tinha dois altos junto ao mamilo, voltou a sair bastante sangue enquanto ela mamava, a pega estava a ficar cada vez mais insuportável e o leite era salgado (sim, provei o meu próprio leite - várias vezes).
Comecei a ver o filme todo na minha cabeça e em novas conversas começámos a perceber que poderia ser uma mastite. O estranho era não ter dores, nem febre, que são dos sintomas mais comuns da mastite. Arranjaram-me uma consulta com uma médica especialista para o dia seguinte, mas entretanto deveria ir às urgências da Maternidade Alfredo da Costa.

Triagem da MAC.
"Acho que estou com uma mastite", a enfermeira olha para mim e pergunta "Tem dores?", "Nem por isso.", "Tem febre?", "Não, mas eu nunca tenho febre.", "Ok. É só aguardar pela consulta.". Nem olhou para a minha mama, o que eu estranhei.
Sou chamada para a consulta. "Ora, então diz aqui que está com muito leite. É isso?", "Errrr... não, é mastite mesmo!". Então eu digo à enfermeira que tenho acho que tenho uma mastite e ela escreve "muito leite"? A médica observa-me e confirma o nosso diagnóstico. Prescreve-me anti-inflamatório e antibiótico, dali a 2 dias tinha de voltar às urgências.

No dia seguinte tive a consulta com a médica especialista em lactação, a Dr. Mónica Pina. Não só tinha uma mastite, como já tinha feito abscesso. "Vá já para as urgências. Não espere por amanhã, porque isso pode dar graves complicações". Tinha de ser drenado com urgência e explicou-me diversos procedimentos de como retirar o abscesso, para que eu pudesse optar pelo menos invasivo possível.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O que levar na mala para Maternidade


Ilustração por Lim Heng Swee / Fonte

Muito li eu sobre como preparar uma mala para levar para a maternidade. Sobre o que devia levar ou o que era dispensável. Nas aulas de preparação deram-me uma lista, na Maternidade deram-me outra e eu optei por fazer um mix das duas.
Já tinha tudo preparado, com tudo o que eles diziam nas listas, quando fiz a visita à MAC e reparei que a mala que eu tinha escolhido nunca caberia nos cacifos. Tive de refazer tudo para trocar por uma mala muito mais pequena.
Enquanto lá estive acabei por perceber que, se pudesse, teria trocado algumas coisas.

Estas foram as listas que me foram dadas


Lista dada na MAC

Lista dada onde fiz a preparação para o parto

Quando percebi que não conseguiria levar tudo sem fazer uma mala gigante ou ter mais do que uma mala, optei por levar apenas metade das coisas e deixar em casa tudo preparado para que o Duarte me fosse levando as roupas limpas e trazendo as sujas para casa.
E só levei uma mala, não tinha paciência para andar com duas malas.


Mala da Mãe

O que levei

  • 1 camisas de dormir
  • Roupão
  • 10 Cuecas descartáveis e uma embalagem de pensos de noite
  • 3 Soutiens de amamentação
  • 3 pares de meias (ainda bem que me lembrei disto, porque eu sou mesmo muito friorenta)
  • Discos absorventes
  • Chinelos de quarto
  • Chinelos de duche
  • Toalha de banho
  • Toalha de linho para a cara
  • Toalhas pequenas íntimas
  • Estojo de higiene pessoal
  • Saco de plástico para a roupa suja
  • Carregador do telemóvel

O que mudaria

  • Não levaria camisa de dormir. Comprei duas camisas de dormir todas bonitas na Teresa Alecrim. De algodão macio, com botões à frente, branquinhas. Lindas. Se fosse hoje nem as teria comprado. Primeiro, não as usei na maternidade nem nos primeiros dias em casa porque como são branquinhas não queria que ficassem sujas de sangue (daí ter optado por ficar com a bata hospitalar e só vesti a camisa de dormir durante as duas horas de visitas), depois porque as minhas mamas cresceram tanto (e elas já eram enormes) que não era nada confortável tirá-las pela abertura. Estão guardadas para mais tarde, para quando deixar de amamentar ou deixar de amamentar durante a noite. São lindas e super confortáveis, mas não me deram jeito;
  • Não optaria por cuecas descartáveis e pensos. A Maternidade dá-nos um ou dois pares de cuecas descartáveis enormes (tamanho único...) e um ou dois pensos gigantes, e eu comprei cuecas e pensos. Se fosse hoje não teria gasto dinheiro nisso e teria dispensado as da maternidade. Porquê? Porque eram enormes para mim e passava o tempo a ajustá-las para não sujar tudo. Da primeira vez que me levantei para ir à casa de banho deixei um rasto de sangue atrás de mim. Isto porque tinha saído tudo do sítio. Eu não fiquei envergonhada nem nada, mas é chato. Se fosse hoje teria comprado logo fraldas para adultos, daquelas todas apto que são tipo cuecas. Ficam ajustadinhas, aguentam mais tempo e uma pessoa não se preocupa. Se aguentam incontinência urinária e fecal, melhor aguentarão os lóquios (perda de sangue);
  • Não levaria as toalhas pequenas. Não havia bidés. Se precisasse de me lavar apenas naquela zona, tinha de me meter no chuveiro e para isso usaria a toalha de banho.

O que deixei pronto em casa

  • 1 camisa de dormir
  • 1 toalha de banho
  • Muda de roupa para quando saísse da Maternidade

O que dispensei completamente

  • Máquina fotográfica ou câmara de filmar (já chegava o telemóvel);
  • Leitura - Que cabeça tinha eu para ler? Para me entreter tinha o telemóvel;
  • Embalagens de lenços de papel. Para quê?



Mala do Bebé

O que levei

  • Saquinho com a primeira roupa da bebé (um body, umas calças, um gorro e um casaquinho) 
  • 2 mudas de roupa (cada muda composta por um babygrow, um vestidinho fino para receber as visitas e um gorro)
  • 2 fraldas de pano
  • 1 Toalha de banho
  • 20 fraldas descartáveis
  • Estojo de higiene do bebé (escova, pente, tesoura, lima, etc)
  • Items de limpeza do bebé de tamanho de viagem (creme lavante, hidratante, creme para assaduras, etc.)
  • Toalhitas
  • Soro fisiológico
  • 2 babetes
  • 1 manta

O que deixei pronto em casa

  • 3 mudas de roupa do estilo das que levei
  • Roupa para a saída da Maternidade (que era a roupa que a minha Mãe preparou para a minha saída, mas que nunca chegou a ser usada)
  • Toalha de banho
  • Mais fraldas de pano e descartáveis
  • 1 manta
  • Ovo para transportar o bebé

O que mudaria

  • Dispensaria a toalha de banho. Enquanto estão na maternidade, os bebés são lavados com compressas e soro. Não tomam banho com água.
  • Não levaria as mantas. A Carminho esteve o tempo todo com a manta da maternidade.
  • Levaria menos fraldas. Os recém-nascidos não sujam assim tantas fraldas.
  • Não levaria os babetes.
  • Nada de casaquinhos de lã. Ela nasceu em Maio e a Maternidade é climatizada.

O que dispensei completamente

  • Botinhas de lã. Ela usou calcinhas e babygrows com pés, não lhe ia vestir botinhas por cima disso.
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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Saúde Pélvica

Há uns dias tive uma sessão/aula de fisioterapia na MAC.
Esta sessão foi-me marcada por eles, devido ao meu tipo de parto (fórceps).





Como vos disse, fiquei chocada por sermos apenas 4 mulheres quando 15 foram convocadas. Acho que as mulheres têm muito pouco cuidado com elas mesmas e sinto que há bastante desconhecimento no que diz respeito à saúde sexual.
Não que eu seja uma perita na matéria, mas desde miúda que foi algo que me interessou e algo sobre o qual me fartei de ler e pesquisar. Quer por uma questão de prazer, quer por uma questão de querer ser saudável.

A sessão foi com a Fisioterapeuta Sofia Carrêlo, que adorei. Gostei da sua forma de explicar as coisas e do seu humor. Gostei de como fala com um enorme à vontade e sem paninhos quentes ou medo de chocar. É cá das minhas. As coisas são como são e não vale a pena andar com paninhos quentes.

O tópico que se abordou foi, basicamente, a recuperação dos músculos do pavimento pélvico. No entanto também falámos de como tratar as cicatrizes da episiotomia e, muito superficialmente, lubrificação.



Quer já sejam mães, quer ainda estejam longe de o serem, quer não o queiram: todas as mulheres deviam fazer exercícios vaginais! TODAS! Desde ontem! Desde sempre. Vai ser algo que vou ensinar à Miminho assim que puder.

Apesar de já saber 99% das coisas faladas na sessão, há sempre espaço para aprender mais e formas novas de se pensar as coisas.
Antes de mais e como explicou a Sofia, precisamos de fazer estes exercícios porque temos uma enorme desvantagem: "o simples facto de sermos mulheres". Enquanto não evoluímos para uma postura bípede os nossos orgãos internos estavam apoiados nos músculos da barriga, onde não há buracos, quando nos pusemos sobre duas patas, a vida da mulher ficou dificultada e os nossos órgãos internos dependem de uns músculos que nos mantêm os orifícios fechados.

Os nossos órgãos estão assentes sobre os músculos pavimento pélvico (MPP), músculos que rodeiam os nossos orifícios lá de baixo: uretra, vagina e ânus.
São os MPP que: controlam a função urinária e fecal (fecham a passagem e impedem que andemos sempre a libertar fluidos), suportam os nossos órgãos dessa zona (evitam que a bexiga, o útero e o intestino saiam pelos orifícios que temos) e que promovem uma vida sexual saudável.


E reparem que à volta da vagina e do ânus, o músculo faz um 8 - Fonte


Vamos pensar um bocadinho: o que é que acontece aos músculos que não são exercitados? Pensem no infame músculo do adeus. Estava tão firme à volta do nosso braço e foi descaindo, há quem lhe chame asa de morcego. Porquê? Porque não se fez exercício, logo perdeu a força, perdeu elasticidade... Todos os músculos são assim, incluíndo o da nossa vagina. E é indiferente se parimos vaginalmente ou se nunca se teve um filho. Um músculo que não é exercitado perde qualidades. Neste caso não é só uma questão estética, é uma questão de saúde, precisamente pelas funções de que falei anteriormente.
Porque acham que há tanto mercado para as fraldas para os adultos? Porque acham que os anúncios destas marcas não falam em doenças que provocam incontinência, mas falam do "espirrei/tossi/ri e saiu uma gotinha de xixi"? Isto, minhas caras, é a consequência de não se exercitarem os músculos do pavimento pélvico em pessoas perfeitamente saudáveis, sem doenças que provoquem incontinência.

Depois, há um bónus de cedo se começarem a fazer os exercícios (a.k.a. Kegel - já explico): melhora a vida sexual. Ficamos mais apertadinhas e ainda temos a capacidade de proporcionar mais prazer ao homem, porque o podemos apertar durante a penetração. O que é bom para eles e duplamente para nós (dá-nos mais prazer e fazemos exercício).


Mega parêntesis:
Isto se formos hetero, nos outros casos não sei como fisicamente possa aumentar o prazer de outra mulher... agora vou ficar a pensar nisto... mais uma pesquisa a fazer e mais coisas constrangedoras no meu histórico.
Hmmmm... tenho de esperar pela vinda de uma amiga minha cá a casa. Era costume juntar-se um grupo de amigos cá em casa e debatermos assuntos sérios, com humor. Como, geralmente, a coisa era acompanhada com uns copos de vinho ou outras bebidas (no meu caso, absinto), acabávamos sempre com dúvidas de cariz sexual e alguém dizia "Oh, Rita! Vê aí no teu telemóvel como é que se faz...". Era sempre o histórico dela que ficava conspurcado.
Rita: preciso de ti. Tenho uma dúvida 😂

Continuando: Não só estes músculos previnem a necessidade de, mais cedo ou mais tarde, termos de andar com pensinhos diários ou fraldas, mas previnem prolapsos.
Sabem o que são prolapsos? É quando os nossos órgãos internos decidem sair e conhecer o mundo. É quando, por exemplo, se está na casa de banho e o nosso útero sai pela vagina. Quem diz útero, diz bexiga e diz intestino. Achavam que as hemorróidas causadas pela obstipação ou pela gravidez ou pelo parto eram más? Imaginem o que é sair-vos o intestino ou outro órgão que é suposto estar bem guardadinho dentro de nós.

Portanto, meninas: Estão à espera do quê para começar a fazer os vossos Kegel? Já deviam ter começado na adolescência! Vamos lá!




O que são os Kegels: São os exercícios criados pelo Dr. Arnold Kegel, em que se contrai e relaxam os músculos. Apesar de lhes ter dado notoriedade no ocidente, estes exercícios já eram muito praticados no oriente e conhecidos como pompoarismo. O pompoarismo já está um passo à frente dos Kegels: certamente já ouviram falar naqueles espectáculos tailandeses onde as senhoras disparam bolas de golf, fumam ou fazem outras coisas espectaculares com a vagina. Isso é o pompoarismo, isso é o resultado de muitos anos, muitos exercícios e muitas técnicas. Também não é preciso tanto, mas se quiserem: porque não? Não deixa de ser saudável e ainda têm um divertimento extra. Eu não vos julgarei.

Como fazer o exercício: Contrair os músculos como se estivéssemos a impedir o xixi ou um pum de sair. Não é apertar as nádegas! Nem encolher a barriga, nem nada disso. É o músculo que se encontra na zona do períneo. E depois, descontrair suavemente - não largar de repente.
Uma dica que segui e que só se pode fazer uma única vez (para perceber como se faz) é, quando forem fazer xixi interromperem o fluxo de urina. Ficam logo a perceber qual é o músculo. Mas não façam assim os exercícios, porque pode provocar infecções ou retenções urinárias e a ideia é sermos saudáveis e não nos prejudicarmos, certo?

Há dois tipos de exercício: um rápido e um mais lento.
Rápido ou alforreca (como a Sofia explicou e eu adorei): Contrair durante um segundo e relaxar completamente - repetir 10 a 20 vezes
Lento ou elevador: contrair em 5 tempos, enquanto se expira, e ir "subindo" a cada tempo  (há uma sensação de que os músculos sobem), manter 5 segundos, descontrair devagar quando se inspira (os músculos descem) e descansar 5 segundos. Numa fase inicial, repetir 5 a 10 vezes.
Deve-se fazer o exercício várias vezes ao dia. Podem estar em pé, sentadas ou deitadas. A cozinhar, a lavar os dentes, a amamentar, ao acordar, antes de dormir, enquanto se está ao computador. Ninguém repara e é rápido.



A Sofia deu ainda uma dica: colar um post-it no espelho da casa de banho, com o desenho de uma alforreca. Assim, ninguém sabe o que é, e sempre que lá forem lembram-se de fazer os exercícios.
Eu saquei uma app (tenho apps para tudo) em que defini os Kegel para 3 vezes por dia e sigo os níveis que eles têm. Sou um bocado baldas, confesso.

Outras coisas em que os Kegel ajudam:
- Na recuperação da episiotomia: assim que os comecei a fazer senti uma recuperação muito, mas muito mais rápida;
- Nas dores nas relações sexuais;
- Na laxidão vaginal;
- Alterações de sensibilidade.


Esta app está na App Store da Apple com o nome "Treinador Kegel - Exercícios do Assoalho Pélvico"

Outras dicas:
- Não vale a pena fazer muitas séries para compensar vezes em que não se fez. Estamos a trabalhar um músculo e não o queremos lesionar. Sim, este também se lesiona e cansa, não são só os outros;
- Usem um espelho para observarem os movimentos. Se calhar num primeiro dia não vêem grande coisa, mas com a prática vão vendo a evolução;
- Insiram um dedo e sintam o exercício. Para quem fez episiotomia, podem aproveitar esta altura para massajarem os pontos internos com elastolabo (se não forem sensíveis ao rícino, como eu);
- Divirtam-se com o vosso parceiro. Quando estiverem na vossa intimidade, aproveitem para fazer os Kegel durante a penetração. Perguntem-lhe o que sente, com o tempo e a prática ele vai sentindo cada vez mais.
- Há bolas próprias para se exercitarem estes músculos e que se vendem em sex shops. Há maiores e mais pequenas, com ou sem fios. Quais as ideais para vocês já dependerá da vossa musculatura vaginal, do vosso à vontade e da vossa experiência. Não tenham vergonha e peçam ao/à lojista que vos ajude (não deve ser a coisa mais estranha que ele já ouviu: de certeza!);

- Cintas: um grande "NÃO!" segundo a Sofia e segundo outras fisioterapeutas que já conheci. Era muito comum no tempo das nossas mães, mas agora é completamente desaconselhado (eu sei que há muitos médicos e enfermeiras que ainda hoje aconselham a cinta). Porquê? Porque para além de não resolverem nada, coloca uma pressão e peso acrescidos no pavimento pélvico e só prejudica a recuperação destes músculos. Se usarem para um casamento ou porque vão sair, tudo bem. Como uma peça diária, não. Além de que torna os músculos preguiçosos, enquanto que se não usarmos a cinta, temos tendência para irmos apertando a barriga durante o dia para que não se note.

-Falta de lubrificação vaginal: com a amamentação diminui a produção de estrogénio, o que faz com que a lubrificação vaginal diminua. Não há grande coisa a fazer até se acabar com a amamentação, para além de se usar um lubrificante. Para quem usa preservativos, é conveniente que se use um lubrificante à base de água, porque os que são à base de óleo podem danificá-los.

Provavelmente ficaram coisas por falar, mas a miúda está a acordar.
Qualquer dúvida que tenham é só perguntar que, se eu souber, explico.


Até lá:



Nota: Eu não sou médica, nem enfermeira, nem fisioterapeuta. Sou Psicóloga, actualmente doméstica. Simplesmente, farto-me de pesquisar sobre estes temas. Sempre que tenho uma dúvida agarro-me ao computador e fico horas a pesquisar. Isso vale o que vale e não substitui o que quem vos segue vos diz, ou o que vocês consideram ser melhor.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O Meu Parto III - O Parto




Antes de mais, um desabafo: Adorava deixar de escrever a bold! Mas sou uma naba nesta coisa do html e não consigo alterar a formatação. Queria manter a fonte, o tamanho, etc... Mas que o texto deixasse de estar a bold.
Quando vou ver o código html, não há nenhum <b> ou </b>, portanto não faço ideia! Se alguém me conseguir ajudar ficarei eternamente agradecida.



Como já toda a gente que me lê percebeu, o meu parto não foi fácil. Aliás, dizer que não foi fácil é quase um eufemismo. Foi difícil, traumático, etc. Até há uns dias não conseguia falar nisso sem ficar com os olhos cheios de lágrimas e com o queixo a tremer.

Atribuo parte do que se passou ao facto de me terem feito o toque com descolamento de membranas sem me dizerem. Esta prática é indutora do parto e era algo que eu dizia especificamente, no meu Plano de Parto, que NÃO queria. Pelo menos não até a gravidez estar nas 41 ou 42 semanas. Verdade seja dita: o meu plano de parto não foi aprovado pela direcção da Maternidade. No entanto, tinha-o guardado no meu boletim de grávida.

Acontece que o primeiro toque com descolamento foi feito às 39 semanas. Não fui avisada de que me estavam a fazer o descolamento de membranas. A médica apenas se referiu a uma "maldade" para verificar a abertura e tamanho do colo do útero. Portanto, se não quiserem indução já sabem: quando vos falarem em fazer uma "maldade" digam que não querem!
Eu até me considero uma pessoa informada, mas só reparei no que era tarde demais. Sempre fui de confiar nos médicos e de lhes tentar facilitar a vida: é o que dá ser filha de médico e sobrinha de enfermeiros. Conhecer ambos os pontos de vista e ter bastante à vontade nestas andanças.
O segundo toque com descolamento de membranas foi feito na segunda-feira da quadragésima semana. Já tinham feito uma vez e das vezes seguintes permiti que o fizessem porque, confesso, não me apercebi que era uma forma de indução e porque confiei.



No dia 23 de Maio, como escrevi aqui, "combinei com amigos para ir ver o "Alien", podia ser que ela se sentisse inspirada e decidisse sair por iniciativa própria". Quando voltámos para casa, fui para a cama e acordei cerca de 2h30/3h, pelas 02h30 com contracções.
Tentei continuar a dormir, mas eram contracções de 10 em 10 minutos. Não eram muito fortes, mas eram com uma frequência que nem me deixava adormecer novamente. Ao princípio tentei desvalorizar, achava que seriam mais Braxton Hicks, porque sempre achei que quando começasse com contracções seriam de 30 em 30 minutos ou de 20 em 20. Nunca esperei que fossem logo de 10 em 10.
Levantei-me, agarrei no telemóvel e fui para a sala. Tinha de monitorizar as contracções para perceber se era um falso alarme ou se já era mesmo o início do trabalho de parto. Apesar de não serem dolorosas eram incómodas e sentia um desconforto enorme na zona dos rins. Meti-me aos saltinhos na bola de exercícios, escrevia no blog, tentava entreter-me. As contracções continuavam estáveis de 10 em 10 minutos e eu sem saber o que fazer, porque não tinha grandes dores, mas nas aulas de preparação sempre disseram para irmos para o hospital quando as contracções fossem de 10 em 10 minutos. Decidi que acordaria o Duarte se passassem a uma frequência de 7 em 7 minutos, se começassem a doer mais ou a umas horas mais decentes para o acordar. Passadas quatro horas de contracções de 10 em 10 minutos, achei que devia ir às urgências, e lá o fui acordar, "temos de ir para a maternidade, acho que é agora".

- Já experimentaste a bola?
- Andei nisso toda a noite.
- Queres tomar um banho quente?
- Já tomei, mas se calhar tomo outro.
Tomei mais um banho quente (não que fizesse grande coisa, mas um banho de imersão sabe sempre bem), tomámos o pequeno-almoço tranquilamente, atrasamos um bocadinho a ida para as urgências,  mas lá fomos.

A partir daqui, o timing e ordem das coisas está um pouco mais difuso na minha memória. Algumas coisas poderão não ser exactamente na ordem ou como agora me recordo. O que vale é que tenho as minhas conversas com amigos para dar uma ordem à coisa.
Uma coisa que devem saber sobre mim é que, pelo menos antes de ter a Miminho, se eu não dormisse as minhas 8 horinhas de sono já tinha o dia estragado. Rabugice, cansaço, falta de paciência, irritabilidade, etc, etc, etc. De dia 23 para dia 24 de Maio, não tinha dormido mais do que 3 horas quando acordei com as contracções e, a partir daí, não dormi mais até ela nascer. O que aconteceu às 11h00 de dia 25 de Maio.

Fomos para as urgências da MAC, onde me foi dito que, apesar das contracções de 10 em 10 minutos, não tinha quase dilatação. Mais um toque, mais um descolamento de membranas, e um "vá andar durante duas horas e volte para uma reavaliação. Regresse antes se as contracções passarem a ser muito fortes, de 5 em 5 minutos, se perder sangue ou se a bebé deixar de se mexer".
Acordada desde as 02h30 e ainda tinha de ir andar durante duas horas? Se tem de ser, tem de ser.
Com um marido coxo e com dores no pé, lá fomos andar pelo nosso bairro durante duas horas. Ainda esperámos que a Zara da Guerra Junqueira abrisse porque eu tinha metido na cabeça que queria comprar saco-cama de linho lindíssimo que lá tinha visto. Sabem o mais engraçado? Eu na fila, gravidíssima, e nem a funcionária, nem a mulher que estava à minha frente me deram prioridade. E ambas olharam para mim. Ainda pensei em reclamar, mas como até precisava de estar em pé, só fiz um olhar reprovador e acabei a falar mal com a funcionária. Não é o meu estilo, mas enfim... Estava em trabalho de parto com contracções de 10 em 10 minutos há um porradão de horas e não me deram a prioridade que me é devida por lei, acho que mereço um desconto.
Por volta das 11h30 voltámos às urgências. Não tinha diferença nenhuma na dilatação. Continuava tudo na mesma. Já estava naquilo há 09h30 e estava com, praticamente, uma directa em cima. Estava cansadíssima e a coisa não evoluía. Já estava com vontade de chorar.
Mandaram-me novamente para casa: "Em princípio de hoje não passa, mas volte quando estiverem de 5 em 5 minutos ou insuportáveis".
Voltámos para casa. Tentei descansar, tomar outro banho quente. O desespero era o cansaço pela falta de sono. Sempre que adormecia acordava com uma contracção, parecia uma tortura de privação de sono.



Por volta das 19h30, com 15 horas de contracções de 10 em 10 minutos, ficaram super intensas. E fomos, pela terceira vez no mesmo dia, para as urgências.
Mal a enfermeira me ligou ao CTG tive uma contracção, sempre que entrava na sala tinha uma contracção: "Ena! Teve mais uma grande!" e eu a pensar "f****-se! Mas grandes eu sei que são, não preciso do CTG para me dizer isso...". Por esta altura já tinham passado 17 horas e eu já estava a ver a minha vida a andar para trás. Tinha decidido "Quero drogas!!! Quero tudo aquilo a que tenho direito". As minhas costas estavam tão lixadas que doíam só de lhes tocar.
Eram umas 22h quando fui vista pelas médicas. Continuava com pouca dilatação. Mais um toque, mais um descolamento, mais um "vá andar durante duas horas e volte para uma reavaliação. Regresse antes se as contracções passarem a ser muito fortes, de 5 em 5 minutos, se perder sangue ou se a bebé deixar de se mexer". "5 em 5 minutos durante quanto tempo?", perguntei eu. "Se tiver contracções de 5 em 5 minutos durante meia hora, volte.".

Parecia que estava a adivinhar. Disse ao Duarte que não valia a pena saírmos da zona da maternidade e mal saímos das urgências, tenho uma contracção horrível. Olho para o telemóvel, onde registava as contracções numa app, e tinham passado 5 minutos desde a última contracção. "Ok. Isto tem de se manter assim durante meia hora e eles admitem-me, finalmente". Foi a meia hora mais dolorosa da minha vida. Pensava eu.
A andar pelas ruas à volta da maternidade, de 5 em 5 minutos, encostava-me a uma parede cheia de dores. Durante meia hora, andei pela rua a chorar, a desesperar, a contar "já só faltam 5 contracções para voltar", "já só faltam 4", "pffff... faltam 3", "f***-se!! Só mais 2", "Vá lá, só mais 1!! Vamos voltar para as urgências!". Detesto que me vejam a chorar ou a sofrer, mas estava-me a borrifar. Além do mais, quem me visse percebia perfeitamente o que estava a acontecer: uma grávida, ao lado da MAC, a chorar agarrada às paredes e a dizer para o marido "A culpa é tua! Tu é que querias filhos, mais do que eu! Porque é que eu fui na tua conversa??". Nunca pensei ser um cliché ambulante, mas lá estava eu a responsabilizar a 100% quem me acompanhava.

De volta às urgências, fui sentar-me agarrando-me à cadeira da frente, enquanto o Duarte foi à recepção. Diz-me ele "deram-te alta".
- O quê????!!!!
Não me lembro se me levantei ou se gritei do meu lugar
- Não me deram nada alta! Eu estou aqui para ser reavaliada. Não me deram alta! E se me deram, abram novamente o processo!
A recepcionista lá foi ver o que se passava.
Eram umas 23h00, 18h00 de contracções, 4h00 de dores terríveis nas costas em que nem queria que o Duarte mas massajasse, estava eu na sala de espera das urgências da MAC cheia de medo de ser observada e que me voltassem a dizer para ir andar, porque eu mal conseguia mexer as pernas, quando... de repente... 












Senti um "pop", comecei a escorrer líquido e pensei "agora não há hipótese, têm de me admitir. Daqui já não saio". Avisei a recepcionista:
- Olhe, rebentaram-me as águas!
- Ok. Não se preocupe.
E nada...
Eu continuava a escorrer, a cadeira cada vez mais molhada e nada.
- Olhe, pelo menos, chamarem alguém para limpar isto, não?
Eu sei... eu sei... Para quem lá trabalha isto é mais do mesmo. É algo que acontece "n" vezes por dia, fui só mais uma a sujar mais uma cadeira e não é algo que os leve a vir-me buscar no segundo seguinte. Mas eu não estava bem em mim e era a minha primeira gravidez, pelo que estranhei aquele comportamento.
Lá me chamaram. Só a mim. Por enquanto o acompanhante ainda não entrava. Vou para a triagem, começam a falar comigo ou a fazer-me perguntas das quais já não me lembro, com a excepção de uma:
- Vai querer epidural?
- Sim!!!!

Levam-me para outra sala, para que vestisse a bata, e acompanham-me até à sala de partos. A anestesista já vinha para me dar a epidural. Eu não gostava muito da ideia de me espetarem fosse o que fosse na coluna, mas não aguentava muito mais, só queria ficar sem dores. Só queria descansar um bocadinho. Nesta altura as contracções eram com menor frequência, cerca de 3 em 3 minutos.
A anestesista chega, pede-me que me sente em cima da cama, com as pernas cruzadas à chinês e enrolando as costas. Lá me espeta o que tem a espetar, o que foi desconfortável.
- Como sente as pernas? - perguntou.
- Pesadas. - respondi, achando que fosse uma sensação normal.
- Pesadas?! - reagiu.
"hmmm..." pensei eu "resposta errada..."
- Sim, e estão dormentes.
- dormentes?!
- Sim.
- E está dormente onde?
- Olhe, estou a começar a sentir dormência até à barriga.
- Consegue deitar-se?
Tentei descruzar as pernas.
- Não consigo mexer as pernas.
E o meu corpo começa a cair para o lado.
- Senhora Enfermeira, agarre-a!
Deitaram-me na maca e aqui eu estava um bocado noutra dimensão.

- Sente isto?
Olhei e estavam a espetar-me qualquer coisa na perna.
- Não.
"Pronto! Estou paralítica." pensei "Não me vou preocupar com isso agora. Depois logo se vê."
Elas lá iam fazendo as suas coisas e eu, estava a ficar com tanto sono que decidi dormir uma sesta e aproveitar para descansar enquanto a médica e a enfermeira resolviam o que tinham de resolver. Eu só queria dormir.
- Fique connosco!! Não adormeça!!
Abri os olhos, havia mais gente à minha volta, metiam-me uma máscara de oxigénio. Parecia tirado de um filme. Normalmente, dizem estas coisas quando o personagem está prestes a morrer.
"Então é assim que acaba? Tenho tanto sono...".
- Não adormeça!
Lembrei-me da minha bebé e decidi fazer o esforço, por ela.
Aos poucos, comecei a recuperar as sensações no corpo. Por algum motivo, a anestesista deu-me água a beber. Engasguei-me. Tinha perdido a capacidade de engolir. Se, por um lado, estava a recuperar, por outro não conseguia engolir e durante uns bons minutos assim fiquei.

Sabem quando nos sentamos muito tempo sobre uma perna e, quando a tiramos de debaixo de nós, durante uns segundos não se sente nada e depois começamos a sentir uma dormência? Foi assim que senti o meu corpo todo. Não sentia nada e, depois, estava a sentir dormência da cabeça aos pés.
Com a dormência, veio uma comichão imensa na cara.
Foi mais ou menos nesta altura que o Duarte entrou na sala de partos.
- Tenho tanta comichão. - e coçava os olhos, o nariz, a boca.
- Menina, não se coce. Isso é só impressão, faz parte. Tente não se coçar.
Substituíram-me a máscara de oxigénio pelos tubinhos que se enfiam no nariz. Lembro-me de pensar que sempre tivera curiosidade em experimentar aquilo tudo. A máscara é desconfortável, mas os tubinhos são porreiros. Respira-se tão bem! Às vezes tirava-os para me coçar, mas assim que os voltava a encaixar, sentia o ar tão puro, tão leve, tão fresco. Era óptimo.

How I Met Your Mother  - Lily in labour
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Enquanto esteve a trabalhar, a anestesista foi com muita frequência ver se eu estava bem.
Com a epidural a funcionar era tudo muito mais suportável. Apesar da dilatação teimar em ser extraordinariamente lenta, com a analgesia já tinha forças. Sentia tudo, só não sentia dor.
Durante a noite lembro-me de ter trovejado. Lembro-me de ter vomitado duas ou três vezes. Lembro-me que quando voltava a sentir dormência era sinal de que ia voltar a ter dores e tocava na campainha para avisar. Lembro-me da Enfermeira Amélia. Não a senti muito ternurenta, mas pareceu-me uma mulher rija, confiante no que fazia e que me transmitia segurança. Lembro-me que precisei de fazer xixi, mas como não conseguia ir à casa de banho, trouxeram-me uma arrastadeira. Acabei por ser algaliada, o que não custa nada. 

De manhã, entram, no meu quarto, não sei quantas pessoas. Assumi que seriam internos ou estagiários. Uma médica vai ver em que estado está a dilatação, a posição do bebé, e mais não sei o quê que eles fazem.
A médica falava e a voz era-me familiar. Durante este tempo todo eu, que sou bastante pitosga (5 dioptrias) estive sem óculos. Ela falava com os colegas e eu reconhecia-lhe a voz.
- Vanessa???
- Menina???
Tinha sido minha colega no secundário e agora, 15 anos depois, tinha a mão dentro de mim.
- Então, tudo bem? - Perguntei - Nunca pensei que nos voltássemos a encontrar nesta posição.
Risada geral naquele quarto.
Tenho a sensação de que ela ficou bem mais desconfortável do que eu. Parece-me normal. No processo de gravidez e parto perdemos a conta a quantas pessoas nos viram e tocaram na vagina, o nosso pudor vai pela janela.
Foi uma situação estranha, mas como já nada me surpreende, encarei a coisa com humor e como mais uma história engraçada.

Passado não sei quanto tempo, volto a sentir a dormência. Vinha aí a dor! Toquei logo na campainha para avisar que precisava de mais um reforço.
Alguém voltou, não me deram reforço. Pensei que o anestesista viria a caminho (nesta altura, a primeira anestesista já não estava e já lá tinham ido dois diferentes). A enfermeira dizia-me para fazer força e eu fazia toda a que tinha. Estava com "9/10 centímetros de dilatação", ouvi dizer. Já estava mesmo no fim. Estava quase a acabar. Era agora.
Volta a dor. Desta vez, as dores que sentia nas costas eram absolutamente insuportáveis. Tentava fazer força quando sentia uma contração, mas as dores eram tantas que perdia as forças a meio da contracção.
- Tenho muitas dores, preciso de um reforço.
Ninguém respondia ao meu pedido. Só me diziam para fazer força. E eu tentava. E sentia que ela estava  a "meio do caminho", mas eu perdia as forças por causa da dor e a coisa ficava parada.
- Faça força! Mais força!
- Eu não consigo! Eu preciso de um reforço. As dores tiram-me a força, não consigo fazer mais do que isto. Por favor.
Nada de reforço. Dores horríveis. Percebi que não mo iam dar.
Estava lá uma médica loira que me diz, mais uma vez, para fazer força.
- Eu estou cheia de dores, fo... fogo!!!

Ia-me saindo uma asneira, um "foda-se".
Mas não saiu. Percebi que o meu superego é demasiado presente em algumas situações. Com dores lancinantes e fora de mim, fui incapaz de mandar um "foda-se" a uma médica.
Disse ao Duarte
- Caguei! Vou gritar.
- Faz o que for preciso.
E deitava tudo cá para fora quando fazia força ao sentir uma contracção.
Mas cada vez que gritava, pensava nas outras parturientes que estariam à volta e como os meus gritos as podiam assustar. Raios me partam! No meio daquilo, não só era incapaz de dizer uma asneira, como estava preocupada com as outras? A minha mãe educou-me demasiado bem.
Comecei a ficar um bocado fora de mim. Estava lixada da vida, aos gritos, cheia de dores, a fazer toda a força que conseguia, mas que percebia não ser suficiente. A senti-la a caminho, mas a não avançar. Ficava preocupada com ela.



Oiço alguém dizer que me iam levar "lá para cima".
- Consegue andar? - alguém perguntou.
- Estão loucos???? - gritei.
Nesta altura mandaram o Duarte embora, mas eu já estava noutra dimensão por causa das dores, por causa do meu estado psicológico, e nem dei por nada.
Entre dores horríveis tive de mudar de maca duas vezes. Uma para sair do quarto e para ir para o elevador e outra ao sair do elevador. Lembro-me que me custou horrores.

Quando dou por mim estou no bloco operatório.
Reparei naquelas luzes que aparecem sempre nos filmes e parecia que estava numa nave espacial. Tudo branco, os médicos e enfermeiros com as toucas e com as máscaras, só se lhes via os olhos.
Eu continuava a implorar pelo reforço.
- Já vai. Não se preocupe, tenha calma. Está quase. - alguém me respondeu.

E, de repente, um anestesista por quem quase me apaixonei. Só lhe via os olhos, eram tranquilizadores. Enquanto eu chorava de dores, fazia-me festinhas na cara. Suaves, mas com alguma pressão. A pressão certa. Uma voz apaziguadora que me dizia:
- Menina... Menina... tenha calma. Já estamos a administrar, daqui a uns segundos já não vai sentir dor. Tenha calma, menina.
O próprio anestesista era uma analgesia. Conseguiu tranquilizar-me. A voz e as festinhas eram como um abraço. Gostava mesmo de saber quem é para lhe poder agradecer. Nunca me irei esquecer do seu toque, do seu olhar, da sua voz. Nunca me esquecerei de como, no momento mais doloroso da minha vida, me conseguiu acalmar.



De repente, as dores passaram! Sem as dores recuperei a energia. Já estava pronta para mais um bocado.
- Faça força!
Fiz força uma ou duas vezes e, às 10h56 do dia 25 de Maio, uma Quinta-Feira da Espiga, nasceu a Miminho. Não chorou, mas vi que mexia os pés e as mãos e não me preocupei. Meteram-na a chorar. Chorou durante dois segundos, foi o suficiente. Pousaram-na no meu colo.
Estava roxa e tinha uns olhos enormes, que me fitavam. Levaram-na para a observar e eu pedi "breast crawl". Pousaram-na novamente no meu peito, mas de repente:
- Deixe-me só ver uma coisa!
E levaram-na novamente. Estava a ficar fria. O bloco é um local muito frio.

Senti um alívio enorme quando ela nasceu, mas o alívio total foi quando saiu a placenta. Aí sim, estava tudo cá fora. Avisaram-me que iam fazer uma coisa chata e que podia doer. Carregaram-me na barriga para que saísse tudo. Não me doeu. Foi desconfortável, mas nada de insuportável.
Depois, comecei a tremer e a contrair-me. Não sabia porquê. A médica explicou-me que era normal, porque o bloco é mesmo muito frio, mas que precisava que eu tentasse manter-me imóvel para que me suturasse. Tinham-me feito uma episiotomia e agora tinha de levar pontos por fora e por dentro.
Enquanto tratavam da minha filha, aproveitei para falar com a médica.
- Porque é que eu vim para o bloco? Foi alguma coisa que fiz?
- Não foi nada que tenha feito. Ela estava virada para cima, com a cabeça a bater no osso, acabaria por vir sempre para aqui. Tivemos de a tirar com fórceps.
Na sala ao lado ouvia a equipa a celebrar os "feitos" da minha filha recém-nascida.
- Olhe, não sei o que ela está a fazer, mas os meus colegas estão divertidíssimos com a sua bebé.
Percebi que lhe estavam a fazer o APGAR (começou por ter 9 e depois 10 pontos), ouvi alguém a rir-se e a dizer que ela tinha feito xixi.
Depois, a coisa acalmou. Perguntei pela minha filha.
- Está ali. Não a consegue ver através da porta?
- Doutora, eu sou cega e estou sem óculos. Não consigo ver nada.

Quando terminaram todos os procedimentos, juntaram-me à minha bebé.
Estava na altura de ir para o recobro. Como ela tinha nascido de manhã, assim que fosse para a enfermaria poderia receber visitas.
Durante todo este tempo, desde que tinha saído da sala de partos, o Duarte ficou quase 2 horas sem saber de mim. Quando, finalmente, encontrou uma médica que tinha estado no nosso quarto foi-lhe dito que "mãe e filha estão bem". Foi assim que ficou a saber que já era pai. Quando saíssemos do recobro ele poderia ver-nos.
O que não sabíamos é que haveria uma falha informática e, durante um período de tempo, ninguém saberia responder à pergunta do Duarte "Onde estão a minha mulher e a minha filha?". 
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