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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Paracetamol antes da vacinação - Sim ou não?


Há vários profissionais de saúde (médicos e enfermeiros) que sugerem que se dê um paracetamol (o ben-u-ron) aos bebés antes da administração das vacinas, mas será esta prática realmente necessária, indicada e aconselhável?
Será, a administração profiláctica de paracetamol, inócua e sem contra-indicações? Ou poderá aumentar a tolerância ao parecetamol, mascarar sintomas ou afectar de outro modo o efeito da vacina? 

O mais comum é esta sugestão ser feita quando se vai fazer a Bexsero (vacina extra-plano, para a meningite) e a motivação para esta prática é a diminuição a dor associada à administração da vacina e diminuição da febre que o bebé possa desenvolver a seguir.

Eu já tinha ouvido de tudo. Já tinha ouvido profissionais de saúde a defender esta prática e profissionais de saúde a dizer que era desnecessária. E algumas pessoas defendiam que poderia mascarar sintomas de reacções adversas da vacina, o que não seria muito aconselhável.


Fonte
No nosso caso, como nunca nos fez sentido dar-se um medicamento para um problema que não se tem, nunca demos nada antes da vacinação. Demos depois da primeira dose de Bexsero, porque nos disseram, mas nas seguintes optámos por esperar para ver se havia alguma necessidade - nunca houve, felizmente.
Além do mais, sempre optámos por usar a amamentação como abordagem de controlo da dor. Sempre foi eficaz.


Ora, a nossa pediatra (com quem sempre estivemos em sintonia, seja nas vacinas, seja no BLW, etc.) está de baixa e tivemos de passar para outra. Há umas semanas, fomos fazer a última dose da Bexsero e, enquanto esperávamos, ouvi-a dar indicações à enfermeira para dar o supositório à Carmita.
Perguntei, tranquilamente, se era mesmo o que pensavam fazer e se isso seria necessário, porque nunca o tínhamos feito. A médica respondeu que então, se nunca o tínhamos feito e a Carminho não costumava ter grandes reacções, não seria necessário.
Carmita na mama, agulha espetada, dois ou três acordes de choro e estava tudo ultrapassado.
Mas houve algo ali que eu não gostei. Principalmente, o estarem a combinar um procedimento sem nos consultarem. A adicionar, eu já não achava muita piada a esta prática.
No entanto, entre o nosso instinto/crenças/fontes e a ciência pode haver diferenças. Fui a matutar no caminho para casa, decidi dar o benefício da dúvida à actual pediatra e ir procurar o que diziam os estudos científicos sobre esta prática, em vez de me guiar por o que diz a ou b.


Fonte
Pois bem, os estudos que encontrei vão todos no sentido de não se administrar paracetamol antes das vacinas. Não encontrei nenhuma conclusão que abordasse um aumento da tolerância ou um mascarar de sintomas secundários.
No entanto, os estudos indicam que a administração profiláctica (preventiva) de paracetamol, apesar de diminuírem efectivamente a dor, o desconforto e a febre que possam estar associados à vacinação, diminuem a produção de anticorpos como resposta à vacina. E esses anticorpos são precisamente o que queremos que sejam produzidos quando vacinamos as crianças, são eles que conferem uma maior imunidade.
Até encontrei um estudo que questiona o uso do paracetamol depois da vacinação.
Outra conclusão presente nestes estudos é que a amamentação antes, durante e depois da vacinação está provada como eficaz na redução da dor e desconforto associados à vacinação, pelo que é uma prática recomendada.

Pelos mais variados motivos, há mães que não amamentam e, como tal, não podem recorrer à amamentação como método de controlo da dor do seu bebé. Uma alternativa é a administração de sacarose durante a vacinação.
De qualquer modo, falem sempre com o profissional de saúde. Cada caso é um caso e o importante é que se vacinem!

Ficam aqui as conclusões e os estudos consultados

  • The Effect of prophylactic paracetamol administration at time of vaccination on febrile reactions reactions and antibody responses in children: two open-label, randomizes controlled trials, 2009: "Although febrile reactions significantly decreased, prophylactic administration of antipyretic drugs at the time of vaccination should not be routinely recommended since antibody responses to several vaccine antigens were reduced" - Link
  • The effect of prophylactic antipyretic administration on post-vaccination adverse reactions and antibody respons in children: a systematic review, 2014: "Though prophylactic antipyretic administration leads to relief of the local and systemic symptoms after primary vaccinations, the is a reduction in antibody responses to some vaccine antigens without any effect on the nasopharyngeal carriage rates of S. pneumoniae & H. influenza serotypes. Future trials and surveillance programs should also aim at assessing the effectiveness of programs where prophylactic administration of PCM is given. The timing of administration of antipyretics should be discussed with the parents after explaining the benefits & risks" - Link;
  • The Relevancy of paracetamol and Breastfeeding Post Infant Vaccination: A Systematic Review, 2018: "The relevancy of giving paracetamol post all types of vaccination may be questionable. Breastfeeding before, during, and after immunization are recommended for pain reduction and are proven effective. Further research is required in deciding if paracetamol is to be of rational use following infant immunization" - Link
  • Fever prophylaxis can reduce vaccine responses: A Caution, 2018: "Two recent studies showed that such prophylaxis can reduce immune responses to some infant vaccines, warranting judicious use. In contrast, implementing treatment 6 hours or more after immunization had no effect on vaccine responses and would reduce drug exposure of asymptomatic infants" - Link;
  • Sucrose for analgesia in newborn infants undergoing painful procedures, 2016: "Sucrose is effective for reducing procedural pain from single events such as heel lance, venipuncture and intramuscular injection in both preterm and term infants. No serious side effects or harms have been documented with this intervention. We could not identify an optimal dose due to inconsistency in effective sucrose dosage among studies. Further investigation of repeated administration os sucrose in neonates is needed (...)" - Link.

Adenda (14/08/2018)
Acho por bem, depois de alguns comentários na página do FB, deixar aqui mais informação e esclarecer a minha posição.
  1. Não sou anti-paracetamol, nem anti-medicação. Apenas acho que os pais devem procurar informar-se e os profissionais de saúde devem informar todo o procedimento, incluindo alternativas, vantagens e desvantagens. Coisa que nem sempre acontece. Como alguém disse, e bem, "a vontade soberana é dos pais" (aqui entre nós, para o bem e para o mal, mas isso já são outros quinhentos). Só que para os pais fazerem escolhas informadas, têm de saber com que linhas se cosem;
  2. A amamentação antes, durante e depois, está provada que diminui a dor e desconforto (físico e emocional) no lactente. Se amamentam, é uma excelente alternativa à toma do paracetamol para evitar a dor. Em relação à febre, não vejo mesmo necessidade de se dar o que quer que seja, antes de lá chegar. No nosso caso nunca foi preciso e se eu tivesse optado por dar, nunca saberia que estava a dar desnecessariamente. Se não tivesse dado e tivesse havido reacções mais fortes, então aí já daria. Embora depois da vacina. Se não amamentasse, então aí provavelmente daria o paracetamol antes, para diminuir a dor e o desconforto sentido durante a administração da vacina;
  3. Esta minha publicação não serve para colocar em cheque os profissionais de saúde, mas para informar os pais. Os profissionais de saúde, não só trabalham para nós (e connosco) e querem diminuir o nosso sofrimento e o dos bebés, como têm de cumprir certas normas e recomendações por organismos que tutelam e supervisionam a sua profissão. Se estes organismos dizem que é para recomendar, é legítimo que os profissionais também o façam - até para se protegerem. É compreensível. No entanto, acho que uma política que "se não perguntarem, não digo", também não é correcto porque impede os pais de tomarem decisões informadas e nem todos os pais têm espírito crítico ou inquisitivo. Depois, como em todo o lado, há profissionais melhores do que outros, mais ou menos informados, mais ou menos actualizados - não estou a acusar nem a desculpar quem quer que seja;
  4. Recomendações da Sociedade Portuguesa de Pediatria e da Sociedade de Infecciologia Pediátrica da SPP sobre a administração de paracetamol: "Sendo a febre um efeito secundário frequente, em particular quando a Bexsero é dada em simultâneo com outras vacinas, recomenda-se a administração de paracetamol, no momento da vacinação ou pouco tempo depois, podendo ser administradas mais duas tomas com intervalos de 4 a 6 horas, o que reduzirá a febre, não havendo evidência de interferência com significado na resposta imunitária". (Remetem para um estudo de 2014) - Link;
  5. Recomendação constante da Norma da Direcção-Geral da Saúde para a vacinação contra a meningite, em idade pediátrica: "Até aos 24 meses de idade, recomenda-se a administração de paracetamol na dose recomendada para a idade, prévia à administração de MenB, com o objectivo de prevenir ou diminuir a febre possivelmente associada a esta vacina" - Link;
  6. Reforço: Cada caso é um caso! Falem com o profissional de saúde sobre a necessidade do paracetamol, alternativas para o vosso bebé (se assim o desejarem), perguntem qual a sua opinião sobre os estudos que recomendam que não se administre o paracetamol (nomeadamente, um estudo da GSK que é a empresa que fabrica a Bexsero - Link).
Não encontrei (por enquanto), os fundamentos para as recomendações da administração de paracetamol. Gostava de ter acesso a essa informação, pelo que se alguém a tiver, por favor partilhe.

Fonte

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Amamentar: Sonho ou Pesadelo? - Parte 3/3



Triagem da MAC. Segunda volta.
"Estou com uma mastite, com abscesso", "Tem dores?", "Nem por isso.", "Tem febre?", "Não, mas eu nunca tenho febre. Além do mais, já vim cá ontem, foi confirmada a mastite, mas entretanto fui a uma consulta com uma médica especialista e estou com um abscesso". Desta vez observaram-me as mamas, pelo menos isso.
Sou chamada para a consulta. "Então, diz que tem uma mastite? Com abscesso?", "Sim. Fui vista por uma colega vossa, especialista em lactação, que vos escreveu uma carta.". Lêem a carta, observam-me e optam por chamar o especialista. Enquanto uma das médicas foi chamá-lo, a outra confessou-me "Quando entrou aqui a dizer que tinha uma mastite não acreditei. Pela sua cara, nunca imaginei que estivesse nesse estado. Achei mesmo que estava a exagerar. É uma estóica!".
Disseram-me que, no estado em que estava era suposto estar a chorar baba e ranho e a contorcer-me de dores. "De zero a 10, quanta dor sente?", "Bem... Não é bem dor. É mais desconforto.". Olham uma para a outra, em espanto e lá confirmamos, novamente, minha anormal tolerância à dor. Que, se por um lado é bom porque não sofro tanto, por outro acabamos todos (eu e profissionais de saúde) a desvalorizar sintomas. Se eu não tivesse a sorte de ser tão bem acompanhada, de estar sempre atenta e de ser informada, nem quero imaginar o que me poderia ter acontecido. Uma mastite é algo que se pode tornar extremamente grave se não for tratada o mais rapidamente possível, e é algo que se for apanhado precocemente é de muito fácil resolução.
Começam a explicar-me o procedimento habitual: davam-me anestesia geral, cortavam a mama para drenar e limpar, colocavam um dreno e durante uns dias não podia dar mama.

Deixam-me sozinha no gabinete e chorei. Chorei a pensar que me iam cortar, chorei a pensar que durante uns dias não podia dar daquela mama, chorei a pensar que iam ser dores horríveis, chorei a pensar que ia ficar com a mama marcada para sempre, chorei de medo da anestesia geral (a epidural já tinha corrido mal). Chorei com pena de mim mesma e com raiva, "Porque é que tudo me acontece?".
Entra o especialista, o Dr. Pedro Sereno, olha para mim e diz "grande mama!". Observou-me e deu-me duas opções: cirurgia (que implicava ficar internada umas horas e como tinha comido há pouco tempo ainda teria de esperar mais umas quantas) ou aspiração simples (o abscesso era pequeno, por isso dava para espetar uma seringa e aspirar o pus). Optei pela aspiração. Não só porque me lembrei do que a Dra. Mónica Pina me disse, como sou apologista de se tentar sempre o procedimento mais simples possível. Se piorasse, logo se via o que era necessário fazer.
A aspiração doeu um bocado, não vou mentir. Não tanto o espetar da seringa, mas quando me espremeram a mama para que saísse o pus todo. 20 ml de pus! Uma seringa cheia! Deixou-me o aviso "se piorar volte logo às urgências, caso contrário venha ter comigo na segunda feira de manhã".
Durante uns dias, de vez em quando começava a escorrer pus e lá ia eu buscar compressas e espremer a mama. Carradas de compressas com pus. Duas semanas, duas consultas e mais uma aspiração depois e eu estava como nova.



E... quando tudo parecia estar a correr bem, adivinhem!
Olho-me ao espelho e, uma semana depois, o outro lado da mesma mama estava vermelho e a pega voltou a doer horrores. Entrei em pânico.
Nova mastite? A sério? Quando é que teria descanso? Estava a ser acompanhada, a fazer tudo bem, tudo certinho e tinha de haver tanta coisa? "És de uma família de médicos e enfermeiros, é a nossa sina!", dizia-me a minha tia.
Desta vez ataquei logo, meti a Carminho a trabalhar (mama de 2 em 2horas, enquanto eu massajava), frio na mama depois de cada mamada (almofadas de gel e folhas de couve) e anti-inflamatório. Em 2 ou 3 dias parecia estar tudo bem. Decidi voltar à consulta do Dr. Pedro Sereno, por descargo de consciência, que me confirmou já não haver sinal de mastite - tinha-a atacado a tempo e bem.

Depois de ter resolvido mastites e tudo o resto, a Carminho já mamava de 3h em 3h e as dores eram cada vez menores. Como só ia a uma mama de cada vez, dava tempo aos meus pobres mamilos para recuperarem. Entretanto, vieram as primeiras vacinas e com ela uma crise de "mimo" que me levou a dar mama de 2h em 2h horas. E voltaram as dores! Com as dores que sentia, chegou a um ponto em que concluímos que ela só poderia mamar em intervalos de 2h30/3h00, numa mama de cada vez. Ela quando ia à mama sem fome, brincava com o mamilo ou lá o que fazia e dava cabo dele. Tinha de aguentar, não podia ser em livre demanda. Só podia mamar quando tinha fome, não lhe podia dar mama por mimo. Os intervalos de 3h00 resultavam, por isso tínhamos de voltar a eles. E se chorasse entretanto? Teria de aguentar ao colo (de preferência do pai, para não ser um tormento estar ao colo da mãe e não ir à mama).

Livre demanda? Não deu para mim. Ou melhor, não deu quando a Carminho queria mama com mais frequência. Actualmente, conseguimos. Ela nem pede maminha para se saciar, chega à hora da rotina e toma lá! Com intervalos de 4h00 e noites longas, tenho mais do que tempo para recuperar e consigo dar mama se, por algum motivo, ela precisar de uma mamada extra (como é o caso de ir levar vacinas) ou se fizer um intervalo menor. Assim, consigo tranquilizá-la na maminha.
Mesmo agora, com 5 meses, ainda não pega bem. Safo-me porque cresceu e tem a boca maior, senão o meu horror continuava. Já praticamente desisti de tentar que pegue bem. O problema dela é o posicionamento dos lábios e, de vez em quando, lá estou eu a ajeitá-los.

Se eu tenho uma anormal tolerância à dor e custou o que custou, nem quero imaginar pelo que outras mães passam. Aliás, acho que é graças a essa tolerância que, apesar de tudo, continuo a dar mama. Acho, não! Tenho a certeza.
A cada contratempo pensava "Só mais uma semana. Se não melhorar posso desistir, mas tenho de tentar mais uma semana". E de semana a semana, chegámos aos 5 meses de amamentação exclusiva. 5 meses em que a minha filha não sabe o que é outra coisa senão leite e mama da mãe. Foi o truque que usei para não desistir, para ir aguentando - "Só mais uma semana".


Continuo defensora da amamentação e da amamentação em livre demanda, e acho que as mães devem fazer um esforço para aguentar o máximo que conseguirem, para ver se melhora. É importante, muito importante. Às vezes a dor passa rápido, apenas são precisos uns dias para que os mamilos se habituem. Também é normal doer no momento em que eles pegam na mama e depois já não doer. Outras vezes o problema é o bebé pegar mal, mas há exercícios que se podem fazer e eles lá aprendem. Quando acharem que é muito difícil, respirem fundo e estabeleçam limites, sejam esses limites mais um dia, mais uma semana ou mais um mês.
E não, não há leite mau. Não há leite fraco. Os bebés é que passam por muitas fases, nas quais pedem mais mama. Quando vão passar por picos de crescimento, começam a ir mais vezes à mama e/ou a mamar mais tempo, para sinalizar ao corpo da mãe que será preciso produzir mais leite. Passam também por fases em que ficam mais carentes de mãe, porque se estão a desenvolver e é um trabalho duro, então pedem mais mama. Eu tenho sorte de ter imenso leite e de a Carminho ter tendência para ficar mais tempo na mama do que pedir com mais frequência. Mais tempo eu aguento, mais frequência nem pensar.
Mas somos Mães, não somos mártires. Tenho a certeza de que, se em algum momento tivesse decidido desistir da amamentação, ninguém me condenaria e teria o apoio da família. E, se não tivesse, que se lixassem. Porque o corpo é meu, a escolha é minha. E sabia que o teria feito por não ser capaz fisicamente, e por ser o melhor para a minha relação com a Carminho.

A minha experiência ensinou-me muito sobre amamentação. Muito! Em experiência tenho todo um curso de amamentação.
E ensinou-me também que, apesar da amamentação ser muito importante para o bebé, o mais importante é o bem estar psicológico da mãe e o bebé estar alimentado. É conseguirem encontrar um equilíbrio que permita aos dois estabelecer uma relação. Uma mãe instável não será uma boa mãe, por mais que queira, e isso é pior para o bebé do que lhe dar biberão.
Felizmente, consegui ir dando mama e perceber que tinha de aproveitar outros momentos para estabelecer a vinculação com a minha filha: através do vestir, da higiene, do mudar fraldas, do brincar, etc. Não foi pela amamentação que estabelecemos a nossa relação, com a amamentação corri o risco de prejudicar a nossa relação.
Mas, apesar das coisas terem melhorado, ainda hoje há momentos em que ela me magoa. E muito! E, nesse momento, vem ao de cima toda a revolta, toda a frustração, toda a ansiedade por que passei naqueles meses. Felizmente, não é frequente.

Por isso, não admito que me venham dizer que não promovo a amamentação.
Promovo, sim. Senão, não teria continuado a dar mama e a minha filha há muito que seria alimentada a leite artificial. Senão, não estaria a "rezar" para que não lhe nasça nenhum dente antes de fazer 6 meses, com medo de não aguentar mais dores e ser, por fim, obrigada a desistir de dar mama.
Mas, mais do que promover a amamentação, promovo a saúde mental e a vinculação. Sou uma defensora acérrima da amamentação, desde que não coloque em risco o apego mãe-bebé ou a sanidade mental dos pais. Seja pela dor, seja pela privação de sono, seja pelo que for.
Defendo que, mais importante do que o bebé passar a vida agarrado à mama da mãe, é a relação de vinculo entre os dois. Relação essa que se pode estabelecer de várias formas.

Aproveito para agradecer aos Profissionais que me guiaram neste processo e que me salvaram as mamas: A Enfermeira Luísa Valentim (minha querida Tia), a Enfermeira Adelaide Órfão, a Dra. Mónica Pina e o Dr. Pedro Sereno. Não sei o que teria sido de mim e da Carminho se não fossem eles.
Muito, mas muito obrigada. Do fundo do coração. E da mama! Viva a Mama!

Amamentar: Sonho ou Pesadelo? - Parte 2/3



Os bebés nascem com o reflexo de sucção, ou seja, nascem a saber mamar. O que podem não saber, e muitos não sabem, é a pegar bem na mama (e, consequentemente, a não magoar a mãe). Isto é uma terrível surpresa com que muitas mães se deparam. A terrível surpresa com que eu me deparei.
Enquanto estive na maternidade, não sei se por ainda me doer mais os pontos ou por ela não ter grande força, nem tive dores. Não tinha dores, mas ela fazia-me chupões, vergões ou lá o que ela fazia às minhas mama, que até ficavam em crosta.
"Não lhe dói?", perguntava espantada a enfermeira. "Não", respondia eu, sem perceber muito bem a pergunta e ainda sem saber da minha elevadíssima tolerância à dor.
Aconselharam-me mamilos de silicone que eu, muito toscamente, usava sempre que dava mama. Mamilos esses que, mais tarde, deitei fora porque não serviam para nada. Doía-me na mesma e, dor por dor, mais valia que a minha filha não mamasse em plástico.

Pouco depois de sair da maternidade é que a coisa começou a doer. Muito! E não era só durante a mamada. Era sempre! Durante uns 3 meses, não tive um momento sem dor, maior ou menor.
Ela pegava mal, por mais que eu fizesse exercícios próprios com ela ou que lhe ajustasse os lábios enquanto mamava. Pegava mal e, muitas vezes era de me fazer ir às lágrimas. De me fazer gritar, dar murros na cama, apertar a mão do Duarte com todas as minhas forças.
Sempre que se começava a aproximar a hora de mamar eu começava a ficar em pânico, a suar, a tremer por antecipação. Eu chorava, a Carminho chorava.
Era suposto a amamentação ser um momento bonito, sempre me venderam essa imagem. Sentia-me enganada, sentia-me desiludida.
Tinha medo de dar mama. O tempo entre mamadas parecia passar em milésimos de segundos e eu ficava apavorada de cada vez que tinha de dar mama. Só de pensar nisso tremia. Odiava dar mama. Entrava em tal estado de tensão, que a passava para a minha bebé. Ela mamava, mas pegava mal e, quando eu gritava, ela chorava porque se assustava. Eu não queria dar mama, eu não queria ter a minha bebé a mamar. Eu não estava a conseguir estabelecer o vínculo afectivo. 
Eu sabia que aquele amor mãe-bebé que tanto apregoam nem sempre vem com o parto, mas ele não estava mesmo a acontecer. A amamentação estava a impedir que eu me ligasse emocionalmente à minha bebé.

Os mamilos estavam a ficar cada vez mais doridos, porque não tinham tempo de recuperar entre mamadas. Dava as duas mamas em intervalos de 2h30 ou 3h00.
Ela fazia-me feridas nos mamilos, que iam formando umas crostas acastanhadas e que depois caíam no banho. Uma coisa estranhíssima.
Sempre que ultrapassava um problema, surgia outro. Sempre que eu pensava "agora é que isto vai melhorar"
Fui acompanhada de perto, e bem, por especialistas em amamentação, mas há coisas que dependem do bebé e a Carminho estava decidida em não pegar bem.
Às vezes não me doía e, ao verem a pega, as especialistas perguntavam "não te dói?", mas a certa altura eu já não sabia responder. Não sabia se já me tinha habituado à dor, sabia que ela estava a pegar mal e que era suposto doer, mas eu não sentia dor.



A recuperação pós-parto foi lenta e dolorosa. Eu não me conseguia mexer por causa das dores e o único momento em que conseguia fazer de mãe era marcado por pura tensão, ansiedade, stress... tudo. Não queria que chegasse o único momento em que eu podia ser mãe, odiava-o.
Demorou quase um mês até conseguir andar e sentar-me sem grandes dores (as dores ainda continuaram mais umas semanas, mas era suportáveis). Durante esse tempo, por causa de um misto de dor e de inexperiência, eu só conseguia dar mama deitada de lado. Recostar-me doía e sentar-me era impossível. O único sítio onde me conseguia sentar sem dores era num cadeirão do trabalho da minha tia.
Assim que me consegui sentar, e depois de um episódio nas urgências por causa de um ponto infectado, decidi que tinha de treinar em casa a dar mama em todas as posições: deitada, recostada, sentada, em pé. Não voltaria a estar numa situação em que não me pudesse deitar e não conseguisse amamentar.

Houve uma vez em que ela afastou a boca e escorria sangue. Não doía, mas era muito estranho.
Noutra situação, só ao fim de 40 minutos de dar mama é que reparei que o mamilo de silicone se tinha desviado e que ela tinha acabado de arrancar um bocado de carne da auréola com a sucção. Esse bocado de carne ficou pendurado e no espaço de 24h ficou preto e acabou por cair. Também não senti dor e quando falei com as especialistas elas disseram nunca ter visto nada assim. Acabei a dar autorização para que a fotografia da minha mama fosse usada em cursos sobre amamentação.
Descobri algo que eu nunca tinha pensado ser possível: bolhas nos mamilos. Há bolhas de leite e há bolhas de sangue. Eu tive das duas. É o mesmo princípio das bolhas nos pés. Algo ali a roçar na pele (neste caso a má pega) e que depois provoca bolha. Normalmente são na parte exterior dos ductos mamários e é por isso que ficam com leite ou com sangue. A enfermeira picou-me umas com uma agulha (não dói nada), só para eu aprender no caso de ser necessário, mas normalmente os bebés tratam delas enquanto mamam.
Sofria (e ainda sofro) do fenómeno de Raynaud - os mamilos ficam brancos e provoca dor mesmo quando não se está a amamentar, principalmente quando expostos aos frio. Eu sabia que sofria de Raynaud nas mãos e nos pés quando está frio. Aparentemente, é extensível aos mamilos.
Tomar banho era uma "maravilha", o primeiro toque da água a escorrer pelos mamilos fazia-me contrair de dor, agora imaginem quando fazia banhos quentes por causa da subida do leite. Lá ia eu, de madrugada, chorar para o banho. Menos mal quando optávamos por, em vez do banho, colocar panos de água quente nas mamas antes de amamentar.
Roupa a roçar nos mamilos então era um horror. Optei por usar as conchinhas, o que era uma chatice porque passava a noite a entornar as conchinhas e a acordar encharcada. Mas dizem ser o mais seguro em termos de problemas nas mamas - para evitar fungos e essas coisas devido ao mamilo ficar húmido durante muito tempo.



Numa manhã, olhei-me ao espelho depois do banho e reparei que metade da mama direita estava demasiado vermelha. Apalpei-me, senti uma parte dura à volta do mamilo, mas não doía. Pensei que a vermelhidão pudesse ser do banho e desvalorizei. Falei com a minha tia por telefone: a Carminho tinha de esvaziar a mama, antes que a parte dura ficasse pior. Como não me doía, não pensei muito nisso.
Dois dias depois, a Carminho não estava a ser bem sucedida a esvaziar completamente a mama. Continuava a sentir a parte dura, a vermelhidão continuava e agora tinha dois altos junto ao mamilo, voltou a sair bastante sangue enquanto ela mamava, a pega estava a ficar cada vez mais insuportável e o leite era salgado (sim, provei o meu próprio leite - várias vezes).
Comecei a ver o filme todo na minha cabeça e em novas conversas começámos a perceber que poderia ser uma mastite. O estranho era não ter dores, nem febre, que são dos sintomas mais comuns da mastite. Arranjaram-me uma consulta com uma médica especialista para o dia seguinte, mas entretanto deveria ir às urgências da Maternidade Alfredo da Costa.

Triagem da MAC.
"Acho que estou com uma mastite", a enfermeira olha para mim e pergunta "Tem dores?", "Nem por isso.", "Tem febre?", "Não, mas eu nunca tenho febre.", "Ok. É só aguardar pela consulta.". Nem olhou para a minha mama, o que eu estranhei.
Sou chamada para a consulta. "Ora, então diz aqui que está com muito leite. É isso?", "Errrr... não, é mastite mesmo!". Então eu digo à enfermeira que tenho acho que tenho uma mastite e ela escreve "muito leite"? A médica observa-me e confirma o nosso diagnóstico. Prescreve-me anti-inflamatório e antibiótico, dali a 2 dias tinha de voltar às urgências.

No dia seguinte tive a consulta com a médica especialista em lactação, a Dr. Mónica Pina. Não só tinha uma mastite, como já tinha feito abscesso. "Vá já para as urgências. Não espere por amanhã, porque isso pode dar graves complicações". Tinha de ser drenado com urgência e explicou-me diversos procedimentos de como retirar o abscesso, para que eu pudesse optar pelo menos invasivo possível.

Amamentar: Sonho ou Pesadelo? - Parte 1/3




Tal como as mamas são o símbolo da feminilidade, a amamentação é o símbolo da maternidade, do amor de mãe, da vinculação mãe-bebé.
Mas, e quando o sonho se torna num pesadelo?

Depois de um parto extremamente complicado e com um pós-parto debilitante, a amamentação quase me levou à loucura.
Foi uma chapada muito dura que levei da realidade, talvez a mais penosa de todas. Perceber que a amamentação em vez de fomentar a vinculação com a minha bebé estava a prejudicá-la, foi das coisas mais tristes com que me deparei.
Juntamente com a "loucura" normal pós-parto, as dores da amamentação fizeram-me sentir e dizer as maiores barbaridades em relação a ser mãe, em relação à minha filha. Coisas que nunca irei proferir novamente e das quais me arrependo profundamente. Coisas que farei por apagar da minha memória, não esquecendo que são "normais" e que não me posso culpar por isso, porque não eram verdade.

Há umas semanas, quando publiquei o artigo "Ainda sobre o sono", uma outra mãe achou por bem descontextualizar as minhas palavras e apontar-me o dedo por não promover a amamentação. Não gostei. Não gosto quando descontextualizam as minhas palavras, fico realmente zangada, não gosto quando se critica com o intuito de criticar, e não gosto quando se traçam retratos e fazem acusações sem se conhecer o todo.
Aliás, se se tivesse dado ao trabalho de explorar antes de criticar, ter-se-ia deparado com a crónica "Amamentação" e perceberia a minha posição sobre este tema.
Ora, esta mãe tem toda a legitimidade de não gostar ou não concordar com que escrevi. Tem toda a legitimidade para ter um abordagem da maternidade diferente da minha. No entanto, não tem legitimidade nenhuma (nenhuma!) para dizer que eu não promovo a amamentação.



A minha posição em relação à amamentação é que cada mãe sabe o que é melhor para si e para o seu bebé, cada mãe (e pai) sabe como pretende criar o seu bebé.
Eu defendo a amamentação e a importância da sanidade mental dos pais, para que sejam capazes de dar o seu melhor e promover a saúde física e emocional dos seus bebés. Se por um lado acredito que ir à maminha é fundamental, por outro também acredito na importância de os bebés aprenderem a tranquilizar-se de outras formas. Porquê?
Porque nem todas as mães podem ter os seus bebés acoplados à mama sempre que eles pedem, porque há mães que sofrem com a amamentação, porque há mães que não se podem dar ao luxo de curtir a maternidade e precisam de trabalhar, porque há mães que precisam de dormir mais do que outras, porque há mães que simplesmente não querem. Qualquer uma destas hipótese é legítima.

Sou completamente a favor da amamentação em livre demanda.
Não há melhor para o bebé do que se alimentar directamente da fonte e, nos casos em que a coisa corre bem, não há melhor do que a maminha para tranquilizar o bebé e para fortalecer o laço afectivo entre ambos.
Na mama o bebé faz tudo: alimenta-se, brinca, dorme, tranquiliza, tudo! Quando o bebé pode (ou quer) ir à mama, quando a mãe não sofre com isso e quando a mãe tem disponibilidade para o fazer - dêem mama à vontade. A mama é um mundo! Viva a mama!
Mas, infelizmente, há mães que não podem (ou não querem) e não há problema. Desde que o bebé esteja bem alimentado e saudável está tudo bem, isso é que é o fundamental.

Deixo ainda aqui um exemplo em que não resulta dar-se maminha sempre que eles pedem.
Aqui há umas semanas, quando tive o OK da pediatra para que a Carminho dormisse a noite toda, achei que poderia compensar a mamada da madrugada com mais uma mamada durante o dia. Tinha lido alguns artigos sobre isso e as minhas mamas já aguentariam.
O que aconteceu? Bem, a miúda começou a bolçar sempre e chorava na maminha! Falei com a minha tia (enfermeira especialista em amamentação) porque estava preocupada que fosse refluxo gástrico ou outra coisa qualquer.
Sabem o que era? Excesso de leite. A Carminho, como qualquer bebé, não recusava a maminha que lhe era oferecida, mas ainda tinha leite da mamada anterior no estômago e eu tenho uma enorme produção de leite, portanto ela mamava até ficar enfartada. Aí, obviamente, chorava na maminha, procurava a maminha para se acalmar, sentia-se desconfortável, chorava outra vez e depois ia tudo fora! Assim que acabei com a mamada extra acabou-se o drama.
Quando foi levar a vacina da meningite já tinha mamado, mas ofereci-lhe maminha na mesma (é mais tranquilizador e a dor passa-lhes mais rápido). Claro que 10 minutos depois estava a bolçar tudo, mas foi uma ocasião excepcional.
Portanto, estes são exemplos de situações em que é preciso ter atenção quando se dá maminha em livre demanda. Há bebés que não aguentam e outros que sim.
Cada caso é um caso e os pais é que têm de perceber o que funciona para o seu bebé. Sem culpas!



A amamentação quase me levou à loucura e atrasou o estabelecimento do vínculo afectivo com a minha bebé. Tive de promover o vínculo de outras formas: pela brincadeira, pelos mimos, pelo mudar da fralda, etc. Coisas que só consegui começar a fazer um mês após o nascimento da Carminho. Até lá foi um autêntico inferno.
Estive muitas vezes perto de desistir. Gritei, chorei baba e ranho, mordi-me, mordi a almofada, mordi o meu marido, gritei palavrões, culpei a bebé, culpei-me a mim, dei murros no colchão, arrependi-me de ter tido um bebé, senti-me a mãe mais incapaz do mundo, senti-me culpada por não ser a mãe que a minha bebé inocente merecia. Foi um processo muito complicado, de dor física e psicológica.

Neste meu percurso fiquei a saber algo sobre mim: sou anormalmente tolerante à dor. Com aquilo que eu aguentei (e aguento) a maioria das mulheres teriam desistido de amamentar. E com toda a legitimidade para o fazer.
Somos Mães, não somos mártires. O fundamental é que o bebé esteja alimentado e que mãe e bebé estejam felizes.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O Meu Parto IV - O Pós-Parto

Os partos são difíceis. Ou melhor, não é esperado que sejam fáceis, embora os haja.
E quem me dera que o meu tivesse sido.
Lembro-me que um dos meus pensamentos, no auge da dor e antes de me levarem para o bloco operatório, foi: "Desisto!"
Claro que no milésimo de segundo seguinte percebi que não havia cá "desisto" para ninguém. Era uma situação da qual é impossível escapar. O bebé tem de sair, doa o que doer, saia como saia.



No artigo "O Meu Parto III - O Parto", fiquei aqui:
Como ela tinha nascido de manhã, assim que fosse para a enfermaria poderia receber visitas.
Durante todo este tempo, desde que tinha saído da sala de partos, o Duarte ficou quase 2 horas sem saber de mim. Quando, finalmente, encontrou uma médica que tinha estado no nosso quarto foi-lhe dito que "mãe e filha estão bem". Foi assim que ficou a saber que já era pai. Quando saíssemos do recobro ele poderia ver-nos.
O que não sabíamos é que haveria uma falha informática e, durante um período de tempo, ninguém saberia responder à pergunta do Duarte "Onde estão a minha mulher e a minha filha?".

Continuando...
Até chegar ao recobro estava meio abananada. Já sem dores, a tentar perceber o que se passava, quem era, a tentar perceber o que tinha acontecido nas últimas horas e com um cansaço enorme.
Pensei no bem que me saberia dormir umas valentes horas. Uma boa noite de sono, que já não tinha há dias. E depois lembrei-me que isso tudo tinha acabado. Não havia cá descanso. Não haveria noite de sono bem dormida, nem de várias horas seguidas.
Agora tinha uma bebé e a recuperação e descanso tinham de ser feitos de acordo com ela.

Da parte da bebé, enquanto estive na maternidade, não me podia queixar. Todos os outros bebés choravam, a minha nem emitia um som. Aliás, a minha grande preocupação em relação a ela era que não acordava nem por nada. "Deve mamar de 2 em 2, 3 em 3 horas", diziam e uma hora era passada a tentar fazer com que acordasse. Nas primeiras semanas mamou sempre nua, só de fralda. Despiamo-la para que acordasse e às vezes isso não era suficiente e tinha de ser combinado com cócegas nos pés ou nas axilas e estimulação do maxilar, porque ela adormecia durante a mamada.
Pegar bem na mama, é toda uma outra história, todo um outro artigo. Porque, ao contrário do sono, não foi nada fácil. Agora começa a melhorar, e mesmo assim...



Chegada ao recobro, foi-me dito que, assim que passasse para a enfermaria poderia receber visitas. Pouco tempo depois, a enfermeira apareceu e disse-me que iam abrir uma excepção à regra de "não visitas no recobro", porque o sistema informático estava em baixo e não me conseguiam transferir para a enfermaria. Só o pai da bebé poderia vir e já era uma excepção enorme. Alguns minutos depois:
"Vem aí o pai e o avô". "O avô? Qual avô? Não me sabe dizer?". Não me apetecia nada que o pai do Duarte aparecesse, não me sentia com forças para formalismos. "O avô que é médico." Era o meu pai! Fiquei tão feliz! Estava explicada a segunda excepção. Se o meu pai não fosse médico, não teria entrado. Mas é assim que as coisas funcionam. E, se eu sempre fui muito inibida dessas coisas e raramente usei "o meu pai é médico" em contextos que me poderiam ajudar, naquele momento não queria saber. Sim, é um privilégio. Não, não quero saber se é certo ou errado. Estava fragilizada e ter o meu pai ao lado era o que eu precisava.

Chegaram ao recobro, só podiam ficar 5 minutos, porque não é suposto haver visitas naquele local. A felicidade nos olhos de ambos, a conhecerem a Carminho. O meu pai sacou logo da máquina e ele e o Duarte tiraram fotos à e com a bebé, ao mesmo tempo que me davam atenção a mim também.
Veio a enfermeira e disse-lhes que o avô tinha de sair, mas o pai ainda podia ficar mais um minutinho. Quando chegou a altura de sair, ficou combinado que eu lhe ligaria quando passasse para a enfermaria. Pouco depois, a enfermeira viu-me com o telemóvel e disse-me que não o podia ter no recobro. Já não me lembro bem porquê, mas o Duarte voltou ao recobro e tive de lhe entregar tudo, ficando incomunicável.
Entretanto, tive vontade de fazer xixi. Trazem-me uma arrastadeira e, tal como durante o parto, tive de ser algaliada. Não adiantou endireitarem as costas da cama ou saírem de perto da cama. Não havia maneira de fazer xixi, portanto foi de algália. Duas vezes. Numa das vezes acho que fiz o xixi mais longo da minha vida. Nunca pensei que algália fosse tão simples e pensava que se ficava sempre com uma sensação de xixi incompleto, mas não. É impecável. Não dá aquele alívio que sabe super bem, mas ficamos óptimas.
Ora, as visitas na MAC para os pais são das 12h às 21h. A Carminho nasceu às 10h56 e só passei para a enfermaria pelas 18h00.
Estava eu a "arrumar" o meu espacinho na enfermaria (temos uma cama, uma mesa de cabeceira, o berço e nada mais), quando:
- Tia? Olá! Já passou a hora das visitas, com é que... oh! Já sei! Já percebi - A minha tia é enfermeira e, tal como o meu pai, fez uso da chamada "cortesia profissional".

Antes que comecem já a fumegar e a dizer que estas excepções são inadmissíveis deixem-me dizer que a "cortesia profissional" e o "favor ao amigo" funcionam em qualquer profissão. Quem conhecer gente nas Finanças ou na Segurança Social, nem sequer tem de lá pôr os pés, os amigos levam-lhes os papéis e ajudam-nos nessas coisas. Nos bancos é a mesma coisa, nas imobiliárias também, nas forças policiais, na EMEL. Lojistas que usam os seus descontos para comprar coisas para os amigos, etc, etc, etc... É assim em todo o lado. E não me venham dizer que, se fossem vocês, não aproveitariam a excepção. Além do mais, eu estive "presa" no recobro durante horas, logo a seguir ao parto, em que não podia ver ninguém, em que não pude contactar ninguém, por causa de uma situação excepcional.



Aproveitei que a minha Tia estava ali para ir à casa de banho. Assim, a Carminho não ficava sozinha. Levantei-me, comecei a arrastar-me pela enfermaria e só depois de alguns passos é que reparei que estava a deixar um rasto de sangue atrás de mim. A porcaria da cueca e do penso gigantes, tinham saído do sítio e eu estava a sujar tudo. Por isso é que vos digo: fraldas para adultos! Com as fraldas isto não teria acontecido.
O meu "xixi tímido" não é só para o uso de arrastadeiras, é também em casas de banho públicas. Além do mais, com a episiotomia acontece as mulheres sentirem um ardor (mais ou menos intenso, depende da mulher) quando a urina entra em contacto com a ferida. A antecipação dessa dor fazia com que o xixi ficasse ainda mais tímido. Respirei fundo, concentrei-me, e fiz o que tinha a fazer. Não me doeu, não me ardeu, nada. Pelo menos dessa tinha escapado. Custava-me imenso andar, por causa da cicatriz. Para me limpar só mesmo a encostar o papel, nada de o arrastar na pele.

Pedi à minha Tia que ligasse à minha mãe, para que ela dissesse ao Duarte que eu já estava na enfermaria e para ele me trazer o telemóvel e as minhas coisas. Porque eu não tinha nada. Nem mala, nem artigos de higiene, nada! Só me tinham deixado ficar com uma muda de roupa para a bebé. A resposta do meu querido marido foi que já não pensava em passar lá naquele dia e que me levaria as coisas no dia seguinte. Fiquei num misto de incrédula, com desapontada, com triste, com furiosa, com sensação de ter sido abandonada. Sabem a que distância nós moramos da maternidade? 2 quilómetros! Até a pé se faz num instante! Não só a filha dele tinha acabado de nascer, o que era argumento suficiente para ele dever querer voltar à maternidade, como sabia que eu nunca tinha sido internada e que estava sozinha e sem comunicação com os outros. Como é que ele podia ter uma atitude daquelas? Estar com os amigos a celebrar a paternidade era mais importante do que cumprir o seu papel de pai e de marido? E o que é que custava interromper a festa durante 10 minutos para me ir levar as coisas? A certa altura eu já só estava furiosa.



Sentar-me, deitar-me, levantar-me, tudo era um suplício com as dores que tinha na cicatriz. Quando serviram o jantar, debiquei qualquer coisa, sempre em pé, porque só de olhar para aquela cadeira de metal me doía a cicatriz.
Chegou a altura de apagarem as luzes da enfermaria. A bebé a ter de mamar de 2 em 2/3 em 3 horas e eu sem relógio ou telemóvel para poder ver as horas. O único relógio da enfermaria não era visível da minha cama e a solução que a enfermeira me deu foi levantar-me e ver ou então pedir a uma das outras mães. Amaldiçoei o Duarte. A minha bebé era dorminhoca, era dificílimo acordá-la para lhe dar mama, eu com medo de que ela entrasse em hipoglicémia pela falta de alimentação e sem forma de poder controlar as horas sem ser levantar-me, o que me fazia doer a cicatriz só de pensar. Estava eu a resignar-me ao meu destino de mais uma noite terrível (já tinham sido duas noites em claro, mais uma que mal faria? "Assim é que se vê que só podemos contar com nós mesmos. Não vale a pena contar com a ajuda dos outros. Sou eu e tu filha, só as duas e vamos conquistar o mundo!"), quando o Duarte entra na enfermaria.
Vá lá! Dignou-se a interromper a festa de "wee sou pai" para ser pai e marido. Não sei, nem me interessa, porque é que mudou de ideias, mas agora eu já podia por o alarme para 3 em 3 horas e tentar dormir nos intervalos.

De 3 em 3 horas, fazia um esforço "sobre-humano" para me levantar e acordar a bebé para lhe dar mama. E depois, um segundo esforço para dar a segunda mama e ter de me virar na cama enquanto a segurava. Tinha de a despir e fazer cócegas e todo um número de ginástica para que ela acordasse e mamasse. Tenho a sensação que chamava as enfermeiras sempre que era hora da mama, porque ela não acordava e eu tinha medo de ser muito brusca a acordá-la.
A certa altura, uma das enfermeiras reparou que eu estava a ficar com feridas nos mamilos. Não me doíam, mas estavam lá. A Miminho não pegava bem e estava-me a ferir os mamilos. Sugeriram que usasse um mamilo de silicone. Lá foi o Duarte levar-me um mamilo de silicone e placas de gel da Medela.

Confesso que nem me lembro bem do tempo que lá estive.
Lembro-me que as enfermeiras e as auxiliares era todas, todas!, amorosas e super pacientes e profissionais. Em particular a Enfermeira Graça Lima, com quem criei uma ligação mais especial.
Lembro-me da inter-ajuda entre mães, quando alguma de nós precisava de ir à casa de banho: "podes só vigiar aqui o meu bebé?".
Lembro-me de como uma mãe se riu quando viu a minha cara a olhar para a cadeira à hora do almoço: "sei bem o que estás a pensar. Custa bastante". E ficámos a trocar impressões sobre as dores.
Lembro-me que de 4 em 4 horas lá tomava um paracetamol.
Lembro-me que passava a vida a pedir gelo para a episiotomia.
Constantemente, lá estava eu a carregar no botãozinho para pedir ajuda a alguém.



Só lá estive dois dias, mas pareceu imenso tempo. A certa altura, apesar de toda a ajuda, só já queria ir para casa. Ir à casa de banho enjoava-me imenso. Era o cheiro. O cheiro a sangue, o cheiro a fluidos. Não era o cheiro a xixi e cocó, era o cheiro dos lóquios. Já não podia com aquele cheiro.

No último dia iam pesar a bebé, ver da icterícia, etc., para saber se lhe davam alta, e depois viria uma médica observar-me para ver se me davam alta.
Foi a Enfermeira Graça que a pesou e reparou no angioma na nuca da Carminho - "É a marca dos especiais!" disse-me ela, mostrando-me o seu.  Contra as expectativas das enfermeiras (aparentemente, tinham falado sobre isso) a bebé já tinha recuperado peso suficiente para poder ter alta e de resto estava tudo bem com ela. Pois é, a minha filha não queria acordar para mamar, mas quando pegava na mama era a sério.
Comigo, estava a recuperar bem da episiotomia e estava tudo bem, mas tinha de ir à casa de banho. Oh não!!
Se eu tenho xixi tímido, com o resto ainda é pior. Expliquei à médica e à enfermeira o meu dilema. "Eu sofro de obstipação e não consigo ir à casa de banho em locais públicos. Não consigo relaxar. Em casa tenho um banquinho para apoiar os pés e todas essas coisas. Ainda há umas semanas tive uma crise, fiz um clister e nem assim me aliviei. Tive de tomar dois clisteres e aguentar 15 minutos num banho de imersão morninho. Eu duvido que vá conseguir fazer aqui. Há sempre gente a entrar e a sair da casa de banho, sons, não consigo relaxar a pensar que pode ser a minha bebé a chorar...". Elas entenderam o meu problema. "O ideal era que fizesse aqui, mas compreendemos isso".
Naquele dia a Enfermeira Graça, que era uma porreiraça, tentou, sem sucesso, encontrar uma casa de banho mais sossegada, e perguntou-me se eu queria um clister para tentar ir à casa de banho, "é melhor serem dois". Pus-me a andar de um lado para o outro e a aguentar o máximo de tempo possível. Quando tive vontade fui para a casa de banho. E o que é que saiu? Nada!! Só o próprio clister. Foi uma desilusão. Até ela ficou surpreendida. Passadas umas horas, diz-me que me iam dar alta, mesmo sem ter ido à casa de banho, reforçou que o ideal seria fazer ali, mas que se não fizesse ia para casa na mesma. Disse-lhe que tentaria uma segunda vez. Mais dois clisteres. "A ver se é desta". Mais quinze minutos. Mais uma ida à casa de banho. Finalmente!!! Consegui fazer. Saí da casa de banho, encontrei a enfermeira:
- Consegui!!!! - E abraçámo-nos a festejar e a rir.

Antes de sair, esteve a explicar-me uma data de procedimentos e contraceptivos e tudo e tudo. "Contraceptivo? Abstinência e não se fala mais nisso!", disse eu. Depois daquilo tudo quem é que pensa em sexo? Quem é que, 48 horas após ter sido cortada e levado pontos internos e externos pensa em ter algo a roçar ali? Ok! Eu sei que há mulheres que pensam. Acho óptimo, saudável, tudo isso. Acho também que são umas bravas do caraças! Porque só de pensar em lavar-me naquela zona ficava toda encolhidinha. E só de pensar noutro parto ainda mais!
- Depois pensamos no segundo - disse o Duarte
- Tu pensas no que tu quiseres e podes ter quantos quiseres. Eu fechei a loja. Podemos adoptar, recorrer a uma barriga de aluguer... podes ter filhos com outra... como quiseres. Eu nem quero ouvir falar nisso.

Enfermeira Graça, se ler este artigo (eu sei que segue o blogue), um grande abraço para si e para todas as enfermeiras que, infelizmente, não decorei o nome. Mas em especial para si ❤



A saída da Maternidade revelou o alto nível de segurança com que os nossos bebés estão protegidos. Não só o alarme no pézinho, como vários pontos de controlo que comunicavam uns com os outros à nossa passagem. E, mais uma vez, todos uma simpatia. 
Ainda estava na zona da enfermaria quando passámos pela das adolescentes. Acho eu que eram adolescentes, eram super novinhas. Estavam duas à porta, ainda grávidas, que olharam para a minha bebé e disseram "ooohhh, tão fofa! Tão linda! Tão pequenina!" e eu a babar-me, para logo a seguir uma delas me dizer "uau! Ainda tem uma barriga tão grande!!", "Então, é normal, a seguir ao parto a barriga não desaparece logo", "olha - disse-me a miúda - do meu primeiro, no dia a seguir estava lisinha". "Bitch!!", pensei eu... Se calhar com menos 15 anos a minha barriga também desapareceria no dia a seguir, mas a idade não perdoa... Sacana da miúda, logo a lembrar-me que tinha um longo caminho de recuperação a percorrer. Mas pronto, apesar de brutinha era simpática. Mas bolas, adolescente e já no segundo filho?

A viagem até casa foi um suplício. Aliás, sair da MAC foi um suplício. Bem como as três semanas seguintes.
Andar era um horror, sentar o terror... Até mudar de lado quando estava deitada era doloroso.
A acrescentar, tinha de sair de casa para ir ter com a minha tia ao Estoril para ir ver as minhas mamas (a amamentação foi um processo muito complicado e que, só agora, começa a melhorar), tinha de levar a miúda à pediatra.
Sou ateia, mas quando tinha de sair de casa benzia-me e rezava. Não, não o fazia. Mas quase!


Fonte
Durante a primeira semana em casa estava cheia de medo. De tudo! Até da minha bebé.
E se faço as coisas mal? Ao mesmo tempo, um enorme sentimento de frustração, porque não lhe conseguia dar colo. Dava-lhe mama deitada, porque era a única posição em que aguentava as dores, e tudo o resto tinha de ser o Duarte.
Tinha de ser o Duarte a tirá-la do berço para ma trazer, tinha de ser o Duarte a mudar as fraldas e a limpá-la, tinha de ser o Duarte a dar-lhe colo. E eu ali, deitada, impotente. A única coisa que podia fazer era dar mama e esse era um filme de terror.
Chorei imenso. Não só pelas dores, mas pelo perceber que o momento da amamentação não estava a ser o momento de vinculação que eu tinha esperado. Antes pelo contrário, era um momento horrível, de tensão, de stress, de medo, de dor, de angústia. Cada vez que ela começava a pedir mama eu quase tremia. Lembro-me de chorar ao lado do berço e pedir desculpa à minha bebé, por não conseguir ser uma melhor mãe. Por não conseguir pegar nela quando ela precisava de conforto e por não conseguir que o momento da mama fosse um momento de vinculação.
Chorei, gritei, mordi-me, contorci-me, apertei o Duarte, tudo e mais alguma coisa enquanto dei mama. E só pensava: vou aguentar 1 mês. Como esse mês custou a passar. No fim, "só mais outro mês". E assim chegámos aos 3 meses, sem que ela conhecesse outra fonte de alimento que não a mama.
Mas o tema da amamentação deixarei para outro artigo.

Tinha todos os cuidados com a episiotomia: arranjei uns paninhos de microfibra (ou melhor, cortei uma daquelas toalhas da Decathlon em vários paninhos) e, sempre que ia à casa de banho, lavava com água fria e sabão neutro (glicerina), depois limpava-me com o paninho. Só encostando, para absorver a água e secar o mais possível, nunca arrastando o pano.
Tirava fotos à cicatriz todos os dias, para ir vendo a evolução. Até que um dia, reparei e confirmei, um ponto infectado.
Claro... Claro que eu tinha de ter um ponto infectado! Porque é que haveria de ter uma cicatrização simples e rápida? Naaaaa.... Tinha de me infectar um ponto.
Mais uma ida às urgências. Horrível. Eu sem experiência a dar mama, só tinha dado deitada, e ali à espera só para me verem um ponto. A certa altura perguntei se não tinham um sítio mais recatado do que a sala de espera, para poder dar mama. Deixaram-me entrar. Mas mesmo assim, as cadeiras não eram confortáveis até por causa das dores horríveis, e o Duarte não podia estar lá dentro por causa das outras mulheres. Já tinha leite a esguichar por todos os lados e disse, com lágrimas nos olhos, "vou-me embora. Não vou ficar mais tempo aqui à espera, por uma coisa que só demora 5 minutos. A minha bebé precisa de mamar, eu não consigo dar aqui, vou-me embora".
As enfermeiras e médicas repararam e fui atendida logo a seguir. 2 minutos depois, saía do gabinete com uma receita de uma pomada para aplicar na cicatriz.

Durante duas semanas, a minha rotina diária consistia numa eternidade sempre que ia à casa de banho. Nunca me limpava com papel higiénico, só o encostava para absorver o excesso que ficava na pele e depois era "lavar com água fria, sabão neutro e passar com uma toalha suave", de seguida um quantidade enorme de cicalfate na cicatriz.
Para além da cicatriz tinha ainda de cuidar da hemorroidal. Claro que tinha de ter ficado com aquilo... Por isso, para além daquela rotina para a cicatriz, tinha ainda um bónus 3x ao dia de pomada para a hemorroidal.
A certa altura já nem sabia o que me doía mais: a cicatriz ou as hemorróidas.
Não só fazia estas limpezas todas como comecei também a fazer os Kegel. E com eles senti uma melhoria enorme, em tudo.
3 semanas depois do parto já estava quase como nova e decidi começar com caminhadas diárias. O que não durou muito tempo, porque veio uma onda de calor enorme e só ficava uma temperatura agradável às 22h00 e a essa hora não levava a miúda para a rua.
Quando tudo estava a encarrilar: menos dores, a amamentação menos mal, já conseguia andar, já não sangrava... O Duarte é operado ao tendão de Aquiles e tudo nesta casa cai em cima de mim.
"Tens de descansar", "Dorme quando ela dorme", "Tens de tratar de ti". Como? Impossível, entre um bebé recém-nascido e um marido que não pode andar, quem tinha de tratar da casa era eu. Quem tinha de acartar com as tralhas todas da bebé sempre que saíamos de casa era eu.
O cansaço já era tanto que chegou a um ponto em que eu já cometia erros parvos a conduzir. Não eram perigosos, eram erros de não me conseguir lembrar de caminhos que fazia há anos, de demorar eternidades a estacionar.
O que me valia é que a nossa bebé é uma santa. Tirando o não pegar bem na mama, não dá trabalho nenhum: dorme bem, alimenta-se em boas quantidades, não tem cólicas, é bem disposta.
Pronto: sofri com tudo, mas se a recompensa é ter uma sorte enorme na bebé que tenho e ela ser super saudável e feliz, isso vale a pena.



Oiço histórias de amigas e de mães em fóruns a dizer que os bebés não dormem, que acordam de hora a hora, que perdem peso, que têm cólicas. E eu sou penso "abençoada filha que me calhou."
Vale a pena todos os horrores do parto, dos pontos infectados, de todos os problemas nas mamas (feridas, bolhas, mastites, pus, etc etc), se tenho uma bebé que não sofre. Que é amada, que é feliz, que é saudável, que se está a desenvolver muito bem, que adere rapidamente às rotinas, que dorme...
Por ela, tudo vale a pena. Porque ela é a minha prioridade. Porque o meu dever enquanto mãe é protegê-la, adaptar-me às suas necessidades (por enquanto...), tudo.
A vinculação aconteceu. Não foi imediata, não foi com a amamentação (de todo!), foi com o cuidar dela. Foi com o brincar, com o limpar, com o falar. Foi com o dar colinho quando ela chora (não chora muito, mas chora). Foi com o perceber que ela me procura quando está com outras pessoas ou a brincar sozinha, mesmo que a seguir dirija a sua atenção para outra coisa. Foi com os sorrisos com que ela me presenteia todos os dias. Então os do acordar, são maravilhosos. Foi com o perceber que não há colo como o da mãe. Se ela começa a resmungar ou a chorar, mal vem para os meus braços tranquiliza. São os bracinhos dela à volta do meu pescoço a agarrar com força para que eu não a largue.
Todos os dias o amor cresce mais um bocadinho. Não veio com o parto, foi sendo construído. Não foi automático, mas já me apercebi que daria a minha vida por ela sem pensar. Agora já é o amor incondicional. É o amor da minha vida e agora percebo muitas coisas que dantes não percebia. Mas isso já é tema para outro artigo.



Agora que a minha história da gravidez e do parto está concluída, a minha ideia é ir partilhando convosco coisas como a linguagem dos bebés (sinais que eles dão de que estão com fome, sono, sobre-estimulados ou pouco estimulados), as sestas, o brincar, a importância das rotinas, como os habituar a adormecer/tranquilizar sozinhos, a amamentação, etc. Quero escrever também sobre a questão da vinculação, da amamentação, da depressão, etc.
Se houver algum assunto sobre o qual gostavam de ler, é só dizerem.
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